Esperança: âncora da alma

Lembro-me de muito desejar dormir no quarto com meus pais. Alimentava a ideia de que tudo parecia seguro, aconchegante e encantador. Contudo, logo aprendi que a porta está sempre fechada aos sãos, mas não aos doentes. Assim, em dias de aflições, um fio de esperança raiava em meio à febre, ou às dores pelas quedas de cima dos muros do bairro. Haveria um lugar de refúgio em meio ao sofrimento.

Foi com esse tipo de “memória de cobertor” que li um texto no evangelho de João, informando que na casa de Jesus há muitas moradas, e que ele mesmo nos prepararia um lugar (Jo 14.2). Se na minha infância ser cuidado pelos meus pais era uma delícia, deve ser muito melhor o refúgio prometido por nosso Senhor Jesus Cristo!

Foi ainda com esta memória que entendi o escritor do livro de Hebreus (Hb 6.18-19) ao afirmar: “…forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta…”. O autor chamou a esperança de “âncora da alma”, segura e firme. Até então, confesso, achava que a esperança tinha vínculos com o que se sentia simplesmente. Mas ela está em outro lugar. E ainda assim, ela não é algo subjetivo, abstrato e nem é impessoal. A esperança cristã é específica. Está reservada para nós nos céus (Cl 1:3-8). É algo concreto.

No Antigo Testamento a esperança está diretamente relacionada à confiança, e esta, à existência de um PACTO. Deus é fiel à aliança que firmou com seu povo. Foi ele quem pronunciou a divina promessa de redenção, perdão de pecados e libertação do povo do cativeiro. Desde Gênesis percebemos a espera confiante de que Deus vai agir decisivamente para a salvação de seu povo tendo por base o anuncio em 3.15. Os profetas anunciaram o dia de juízo juntamente com a expectativa redentora. Aqueles que esperam na verdadeira fé são renovados em suas forças para continuar a servir ao Senhor, justamente confiando que a obra de Deus é para a sua salvação. Um daqueles profetas, Isaías, afirmou: “mas os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam”.

No Novo Testamento a esperança se torna a marca do verdadeiro cristão. Se antes a esperança estava vinculada à confiança, agora, observa-se no Novo Testamento que não há esperança sem fé, e sem fé a esperança se torna frívola e vazia.

O autor aos Hebreus enfatiza que somos “herdeiros da promessa”. No centro da esperança cristã está a promessa feita por Deus, que mantem acesa a viva esperança. Além disso, o autor revela que é possível desfrutar, no presente, dessas bênçãos reservadas no futuro.

A esperança é a âncora de nossas almas. Você vai se lembrar disso todas as vezes que puder desfrutar de um aconchego com seus pais, ou outro conforto que remeta sua alma àquele conforto que está reservado para cada um.

Bruno Souza

Adeus 2018. A Deus 2019.

O simples deslocar de uma letra e a mudança de outra em maiúscula transforma a identidade dessas frases. É assim que o novo ano começou: com despedidas e boas vindas; com lembranças e consagração. Sim, em meio aos fogos que iluminaram a noite e assustaram crianças, em meio aos abraços de conhecidos, recém conhecidos e ainda desconhecidos, demos adeus ao ano que passou e consagramos a Deus o ano que chegou. Deslocamos uma letra e a “coisa mudou de figura”.

Também tentamos deslocar outras “coisinhas” em 2018. É possível que tenhamos engordado ou feito a dieta da moda, mudado o visual, afastado os móveis do lugar, comprado os livros desejados ou aprendido a tocar algum instrumento que, realmente, proporcionaram novidades à nossa existência. Mas, estamos mesmo falando de novidades ou apenas as mesmas coisas, porém, com vestimentas novas?

E por falar em roupa nova, é possível, ainda, que alguns tenham tentado usar as roupas novas para comemorar a chegada do ano novo sem, contudo, aperceber-se que nossos corpos não são mais os mesmos. Diríamos como Shakespeare: “Não, tempo, não zombarás de minhas mudanças! As pirâmides que novamente construíste não me parecem novas, nem estranhas; apenas as mesmas com novas vestimentas”. Assim, percebemos que são as letras, muitas vezes, as coisas mais fáceis de serem deslocadas para provocar grandes efeitos em seu sentido. Adeus 2018! A Deus 2019.

Para aqueles que ainda confiam na própria força como agente de mudanças duradouras e capazes de promover alegria perene, ouça as palavras de Walter Kaiser Jr: “[…] a vida em si, mesmo no mundo bom de Deus, […], é incapaz de prover sentido e alegria quando alguém dela se apropria de forma fragmentada e sem conhecer a Deus e nele crer” (Comentário de Eclesiastes, Cultura Cristã). Os cristãos, ao contrário, conhecem a Deus e nele confiam. Sabem o que seu Pai fez para deslocá-los do império das trevas “para o reino do Filho de seu amor” (Cl 1.13).

Essa foi uma baita mudança – de verdade! Não podemos deslocar letras no substantivo “pecador” para “criar” um novo sentido. Dependemos do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Ele nos transportou para uma nova posição em Cristo e para uma nova condição diante de Deus, a saber: “sermos chamados filhos de Deus” (1 Jo 3.1). Em Jesus obtivemos o livre acesso ao Pai (Ef 2:18) e, por causa dele, somos encorajados a viver “em novidade de vida” (Rm 6.4).

Irmãos queridos, a Deus 2019. Que a nossa convicção esteja alicerçada na certeza de que, segundo disse o apóstolo Paulo, “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17). Assim, porque Cristo nos libertou de uma condição terrível de vida sem Deus, descansemos confiados de que o nosso tempo está nas mãos do Senhor do tempo.

Rev. Bruno Souza