Pecado: anomia ou patologia?

“Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23). Esta declaração lhe incomoda? Aceitar a verdade bíblica de que todos são mesmo pecadores é algo incômodo, não é verdade? Caso incomode, há a necessidade de aliviar o peso de alguma forma. Contudo, estamos diante de uma crescente tendência que procura minimizar a consciência do pecado eliminando a vergonha e encorajando o ego para nos sentirmos “livres” da culpa. O problema é que o pecado é a transgressão da lei (1 Jo 3:4), é anomia, uma espécie de nódua cujos efeitos são sérios demais para ignorarmos.

Porém, para esquivar-se desta realidade, os dilemas humanos têm sido explicados em termos totalmente antibíblicos. Ou seja, aquilo que na Bíblia é definido como anomia (transgressão da lei), foi “rebatizado” por eufemismos que tiraram a essência e a seriedade do pecado. Então, se o pecado foi transformado em patologia, nada mais justo do que procurarmos um especialista para sermos “curados” através de remédio e terapia. Aliás, vale salientar que a relação de ajuda profissional tornou-se algo quase sagrado hoje em dia.

Cada vez mais os cristãos estão se submetendo à teorias cujos fundamentos negam a veracidade da Bíblia e rejeitam a sua autoridade no tocante a alma humana. Alguns pensam que a exposição dos dilemas da vida somente para um profissional especializado seja mais adequada do que confessar suas culpas a algum irmão piedoso (Rm 15:14). Outros alegam que se submeter apenas a terapias que visam o alívio por meio de remédios seja mais eficaz do que o aconselhamento bíblico que confronta o pecado na vida do aconselhado. À vista disso, esteja certo de que nenhum remédio ou terapia santificará o seu coração, pois “as respostas racionais que não estão fundamentadas em princípios espirituais, podem trazer algum alívio, mas com o tempo, os resultados podem ser decepcionantes e até prejudiciais” (Don Hillis).

Jeremias pergunta (Lm 3:39): “Por que, pois, se queixa o homem vivente?” O profeta repreendeu a loucura daqueles que imaginavam que Deus havia renunciado os seus cuidados ao mundo. Então, a fim de despertar a mente de todos, ele aponta o remédio: devem olhar para si mesmos e reconhecer seus pecados para que se dissipem todas as névoas que impediam enxergar a providência divina. Ele responde: “Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.” Logo, a causa desta loucura que faz os homens excluírem a providência de Deus dos assuntos da alma humana é a rejeição em olhar para si mesmo como um pecador e envergonhar-se disso.

Ninguém é bom o suficiente para negar que é um pecador miserável com necessidade de arrependimento. Portanto, pecado é transgressão (anomia) e não uma questão simplesmente patológica. E como devemos lidar com isso? Tiago nos encoraja a confessarmos nossos pecados e orarmos uns pelos outros para sermos curados, pois, “muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5:16). Crer nesta verdade, aplicando-a em sua vida, trará, assim, eficaz e genuína saúde para a alma (Pv 16:24)!

Bruno Souza

Calmo, Sereno e Tranquilo

A privação do sono pode ser um grave problema. Segundo especialistas do Hospital Albert Einstein, “trocar horas de sono para dar conta dos compromissos da vida contemporânea tem se tornado um hábito comum e levado 60% da população no Brasil a dormir menos do que deveria. O sono insuficiente não permite ao organismo reparar-se adequadamente, trazendo prejuízos à saúde daquele que dorme menos do que o necessário”.

Diversos fatores são associados ao distúrbio do sono, dentre eles: os externos (excesso de luminosidade, ambientes barulhentos, colchões inadequados) e os biológicos (bruxismo, apneia do sono, insônia). Segundo dados da Associação Brasileira de Sono, mais de 60% das pessoas relatam dormir menos de 7 horas por dia durante a semana e 25% dormem menos de 6 horas por dia. Além disso, aproximadamente 18% das mulheres e 26% dos homens economicamente ativos são trabalhadores que atuam em turnos e com privação crônica de sono.

Existe, entretanto, outro fator que é tão importante quanto os citados acima: a ansiedade. Provocada por qualquer situação de medo, ou desencadeada pelo senso da presença da morte, fez com que os salmistas, por exemplo, escrevessem para tranquilizar os insones: “Sim, é possível deitar e pegar no sono (Sl 3:5) mesmo sabendo que os inimigos estão por todos os lados zombando e prontos para atacar a qualquer momento (vs.2,6)”. Como isso é possível? Confiando nas ações providenciais de Deus que é descrito como uma estrutura sólida e robusta, uma fortaleza segura (Sl 46:1)!

A tranquilidade de um sono imperturbável é observada enquanto Jesus dormia em meio a uma terrível tempestade. O Senhor dormia e não havia qualquer ansiedade. Nunca lemos sobre Cristo dormindo, exceto esta vez. Devidamente registrado em três dos Evangelhos, o contraste entre o assombro de seus discípulos e a paz com que dormia nosso Senhor Jesus, nos permite compreender o que significa ser calmo sereno e tranquilo. Bem diferente da apatia irresponsável, dormir em tais condições demonstra a serenidade divina e confiança em seu Pai.

Certamente Jesus dormia, mas com o propósito de ser acordado. As nossas ansiedades devem nos conduzir para Jesus Cristo, o único que pode ajudar na hora da dificuldade. “Lançai sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (I Pe 5:7). Não nos esqueçamos de que temos um Sumo Sacerdote que conhece nossas fraquezas, temores e ansiedades (Hb 4:14-15). Suportando todas estas coisas Ele é legítimo para acalmar o nosso coração, tal qual aquietou aquela tempestade com uma única palavra.

Então, aqueles que conseguem descansar suas cabeças sobre o travesseiro com a consciência limpa, podem de fato dormir serena e suavemente durante uma tempestade (SI 4.8). Podem sem dúvida enfrentar a morte como um dormir para esse mundo e um acordar para a vida eterna. São capazes de até mesmo cantar durante uma calamidade:

“Calmo, sereno e tranquilo
Sinto descanso neste viver
Isto devo a um amigo
Que só por Ele eu pude obter”.

O Senhor Jesus está em constante intercessão por sua igreja. O tempo oportuno para ajudar sua angustiada igreja chegará (SI 102.13). Por esta razão devemos confiar Nele sem reservas, pois Ele é quem conduz nossas almas pelos mares bravios da vida e somente pode dar descanso e alívio a todo nosso ser!

Bruno Souza

Quem não tem visão…

Lembro-me de quando a minha irmã ganhou um par de patins, cada qual com quatro rodas vermelhas presas numa bota branca de cano alto. Imagine a minha inveja! Imediatamente desejei aquilo que parecia ser tão fácil para ela: simplesmente patinar. Não demorou muito e ela então me proibiu: “nem pense em pegar os meus patins!”. Claro que desobedeci, pois considerei injusta tal determinação. E assim, sem querer olhar para os limites determinados, calcei os patins. O resultado foi dar de cara no muro da garagem.

Poderia não ter acontecido nada. Aliás, na maioria das vezes temos a sensação de que a impunidade é uma regra e, diga-se de passagem, muita gente se aproveita disso como pretexto para avançar sobre os limites e “se dar bem”. Daí uma queixa comum é dizer que a lei pune apenas pessoas de bem enquanto os maus seguem arrogantemente prosperando em tudo e sem nenhuma preocupação. Não obstante, a teimosia obscurece a compreensão de que existem limites impostos para nossa preservação e que ultrapassá-los compromete a segurança e traz prejuízos.

É interessante como o salmista Asafe no Salmo 73 descreve tal postura definindo-a como ignorância (v.22). Sua falta de visão aparece quando ele observa a vida de popularidade dos arrogantes (v.10) em seu aparente estado de saúde e prosperidade (v.4-5) e julga ser inútil conservar-se puro. Dessa forma, Asafe representa a ignorância como um caminho escorregadio e resvaladiço que sempre submete à queda quem por ele aventura-se a andar (v.18). O salmista afirma que a queda ocorre no momento em que a pessoa negligencia os limites propostos por Deus e coloca “os pés para fora” (v.2) do eixo normal de equilíbrio na ilusão de que poderá sustentar-se sobre este substrato movediço.

Os pés do salmista “quase” resvalaram (v.2). Saiba que o coração está inclinado para o pecado. Por isso, questionaremos perigosamente a bondade e o poder soberano de Deus assim como Asafe fez. Sempre que olharmos para a vida e acharmos que Deus é injusto, chegaremos a conclusões temerárias como esta: é inútil manter-se puro e fiel a Deus (v.13-14).

Todavia Asafe percebeu algo fundamental: o Bem Divino não é a prosperidade. Os ímpios podem de fato ser bem-sucedidos mesmo vivendo na impiedade, mas estão cegos para ver o Bem Divino: a Presença de Deus e estar junto dele (v.23-28). Algumas pessoas continuarão andando de patins. Seguirão sorrindo no caminho escorregadio, tentando equilibra-se de alguma forma, mas sem se dar conta de que existe um muro de concreto logo à frente. Que este não seja você, pois quem não aceita orientações, quem não gosta de ouvir, quem rejeita a instrução, não pode aprender nem ser corrigido, será como nas palavras do poeta: “quem não tem visão bate a cara contra o muro!”.