Pandemias e os cristãos

Há grande comoção diante da nova pandemia reconhecida essa semana pela OMS: o popularmente conhecido Coronavírus. Enquanto milhares de pessoas são contaminadas, outros milhões se preocupam diante de um risco crescente. Inúmeras medidas têm sido adotadas, eventos cancelados ou suspensos indeterminadamente, viagens entre nações vetadas, etc. Para uma geração que tem dificuldades com limites, acostumada com um mundo globalizado, certamente tem sido um desafio perceber nossa contingência, nossa humanidade, e os inúmeros riscos existentes em um mundo altamente interligado. O alarme soou alto e não podemos ignorá-lo. Como, então, os cristãos podem reagir em relação a tudo isso?

Gostaria de sugerir um caminho em três vias: a fé, a esperança e o amor.

Primeiramente, precisamos manter firme nossa fé. Como assim? Precisamos lembrar que não há nada nesse universo fora do controle divino, que o nosso Senhor governa soberanamente, que por mais alta a montanha e por menor o vírus, nada escapa das mãos do Senhor (Hb 1.3-4, Rm 11.36, Sl 139). Siga crendo, meu irmão, nosso Senhor é Rei e nada mudará isso. É fato que pandemias vêm, afinal vivemos num mundo caído, mas há alguém maior que tudo e todos, nosso bom Deus. Nos fiemos nele.

Essa verdade deve nos levar a ter esperança. Você tem visto muitas pessoas desesperadas ou extremamente preocupadas? Quantos não têm visto o futuro reduzido a dor, preocupação, novos vírus e pandemias? É verdade que muito sofrimento há nesse mundo, mas nós vivemos nesse mundo olhando e esperando o próximo (Rm 8.18). Nossa esperança está no Deus que nos preserva. A graça comum tem se manifestado todos os dias! Você tem visto? O que dizer sobre a velocidade da reação ao perigo? Quantas pessoas a quem Deus concedeu dons e talentos têm servido? Quantas descobertas têm sido feitas instante a instante? Quantos estão em hospitais se arriscando em prol de outros? Deus tem cuidado do mundo! Deus tem cuidado dos seus! Deus tem cuidado de nós (Fp 4.6)! Tenha esperança. Deus nos deu seu filho amado, não irá também nos sustentar nos temporais dessa vida (Rm 8.31-39)?

Por fim, ame! Ame a Deus e ao próximo (Mt 22.36-40). Você pode servir muitos irmãos em meio à turbulência? Então, faça isso! Console, apoie, visite, cuide, ore. Exerça, na prática e em meio à pandemia, o amor cristão, o amor que privilegia o próximo, muitas vezes em detrimento de si mesmo. Ame aquele que está perto de você: lave as mãos, atenção aos espirros, preserve-se caso haja suspeita de doença… Acima de tudo, ame a Deus! Ele que está cuidando de você, da sua família e dos seus amigos (aqui e na China). Que ele seja o seu maior amor, enquanto você segue confiando nele e esperando que a mão providente faça o que tem feito ao longo da história: governe amorosamente sobre esse mundo caído!

Cauê Oliveira

O Arrependimento para Vida

Uma das dúvidas mais frequentes em nossa caminhada cristã, é saber quando o nosso arrependimento foi autêntico. Pois bem, o verdadeiro arrependimento para vida está intrinsecamente vinculado com a verdadeira fé para a salvação. Essa fé produz necessariamente o verdadeiro arrependimento. Não é sem motivo que a Escritura às vezes relaciona as duas coisas, isto é, “arrependei-vos e crede no evangelho” [Mc 1.15]. Também é notável como nossa Confissão de Fé de Westminster coloca a doutrina do arrependimento após o capítulo da fé salvadora [ver CFW, cap. XV].

No Novo Testamento as palavras para arrependimento implicam numa mudança de mente, de tal modo, que a pessoa arrependida passa a agir de acordo com essa mudança. Esse arrependimento é uma exigência da Escritura, pois é requerido que haja uma mudança de mentalidade decorrente do entendimento do evangelho [Atos 2.38]. A razão para isso decorre de que nossas mentes e corações eram escravos do pecado, do mundo e de Satanás. Nossa consciência estava completamente obliterada, e nosso coração totalmente morto no pecado [Ef 2.1-3; 4.17-19].

A Confissão de Fé deixa claro como o verdadeiro arrependimento é, sobretudo, uma graça salvadora, ou como a mesma diz, é “uma graça evangélica” [CFW XV.I; At 11.18]. Essa é a razão por que Esaú buscou o arrependimento e não encontrou, pois assim como a fé, é um dom de Deus. Essa graça é operada no coração, na sede governamental da alma e gera uma mudança radical em relação ao pecado; fornece uma compreensão adequada da graça e misericórdia de Deus em Cristo; opera uma mudança de comportamento, e principalmente, é centrada em Deus.

O verdadeiro arrependimento demonstra-se por uma consciência e percepção de pecado [At 26.15-18; Sl 32 e 51], que produz uma tristeza santa e segundo Deus [2 Co 7.10], pois “sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito” [Sl 51.17]. Ademais, essa tristeza resulta em confissão de pecado [Sl 32; 51; 1 Jo 1.9; Pv 28.13], e o coração do arrependido no lugar do deleite, sente ódio, repulsa e indignação decorrentes de suas transgressões [Ez 36.31]. Sobretudo, esse arrependimento é prático culminando no abandono do mal [Pv 28.13], e produzindo o oposto do pecado, devotando-se à prática do que é bom, e assim, a vida do arrependido é caracterizada pela sua nova realidade no caminho da santidade [Ef 4.25ss]. Enfim, você deseja saber se o seu arrependimento foi verdadeiro? Então, ore a Deus através da mediação de Cristo, em seguida, passe seu arrependimento pelos critérios supracitados.

Solus Christus

Lic. Paulo Ricardo

[1] CFW é uma sigla para Confissão de Fé de Westminster

Justificação e santificação: Que diferença isso faz?

“Como alguém que se diz crente pôde fazer algo dessa natureza?” Muitas vezes ficamos perplexos quando tomamos conhecimento que algum irmão na fé incorreu em determinado pecado ou nós mesmos caímos em alguma transgressão. Partimos do pressuposto tácito de que a conversão a Cristo não permite que alguém cometa tais e tais pecados. Não obstante, quando pensamos dessa maneira incorremos em erro.

Uma pessoa convertida continua com o mal habitando em seu coração. Virtualmente, tal pessoa é capaz de cometer qualquer pecado, com exceção da blasfêmia contra o Espírito Santo, pois este pecado nenhum salvo jamais cometerá. Mas ela enfrenta o mesmo dilema do apóstolo Paulo “Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim” (Romanos 7.21). A permanência do pecado na vida do salvo é motivo suficiente para que ele se entristeça muito e até mesmo questione a sua salvação.

Dois conceitos, então, tornam-se extremamente necessários, a fim de que tal pessoa compreenda a sua real situação. O primeiro deles é a justificação, que nada mais é do que um ato de Deus somente, ou seja, o homem não possui qualquer participação, no qual todos os pecados da pessoa são completa e definitivamente perdoados. Assim, não existe crente mais justificado do que outro. O crente com mais lutas, que mais sofre com o pecado é justificado tanto quanto o crente mais consagrado. E a razão é óbvia: a justiça pela qual nos colocamos diante de Deus não é a nossa própria justiça, mas a justiça perfeita do Filho de Deus.

O segundo conceito é o da santificação, que não é um ato, mas um processo. Não acontece de uma vez, mas ocorre ao longo de toda a vida da pessoa. E não é obra somente de Deus, muito embora a assistência do Espírito seja o fator decisivo. É uma obra na qual a pessoa tem algumas responsabilidades: mortificar o pecado: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”, e cultivar a piedade: “Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Salmo 1.1-2). Aqui já encontramos uma diferença de crente para crente. Há cristãos mais santificados que outros. No entanto, sempre é preciso lembrar: o que faz com essas pessoas permaneçam na presença de Deus não é a sua justiça pessoal, mas a justiça perfeita de Jesus Cristo. De modo algum isso deve se constituir em desculpa para viver no pecado. Uma pessoa justificada sempre buscará a santificação. Para colocar de outra forma: todos os igualmente justificados experimentarão lutas distintas na santificação, mas, no final, por causa de Cristo, todos serão igualmente glorificados.

Pastor Alan Rennê

Qual a verdadeira moda evangélica?

Você consegue identificar um cristão? Saiões, cabelos compridos, ausência de maquiagem e acessórios, camisas sociais azuis para dentro da calça social preta… Durante muito tempo – e em certo sentido ainda hoje – você conseguiria distinguir os crentes de longe. Entretanto, o que talvez muitos não saibam é que a Bíblia fala muito sobre roupa! Talvez ela não fale exatamente como você gostaria, dizendo o que você deve ou não usar para ir à praia, entretanto, ela certamente nos aponta vários princípios e direções.

A Bíblia inicia com uma bela criação, cheia de cores, vida e possibilidades. O homem e a mulher estavam nus e isso não era um problema. A nudez não os incomodava, pois eles eram plenamente santos (Gn 2.24)! O pecado entrou no mundo e, com o pecado, a primeira celeuma sobre moda. Adão e Eva, tendo pecado, costuraram vestes para si, tentaram cobrir sua vergonha com as próprias mãos (Gn 3.7) e se esconderam do Criador. Em sua graça, Deus prometeu que viria o homem com vestes perfeitas (Gn 3.15, Ap 1.12ss) e vestiu adequadamente a humanidade pela primeira vez: “Fez o SENHOR Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu” (Gn 3.21). Veja como para nos vestirmos foi necessário sacrifício e derramamento de sangue.

Daí em diante, em toda a Bíblia, vemos que a temática da roupa reaparece constantemente: os sacerdotes tinham uma roupa especial, inclusive para quando iam retirar as cinzas (Lv 6). Quem diria que para fazer uma tarefa que envolveria tanta sujeira, as vestes precisariam ser brancas e puras? Em Zc 3, na visão do sumo sacerdote Josué, vemos como para permanecermos diante de Deus, precisamos que nossas vestes sujas sejam retiradas e que nos sejam dadas vestes finas e um turbante limpo. É necessário que a justiça de outro seja colocada sobre nós e que a nossa impureza seja retirada (alguém mais lembrou de 2Co 5.21?). Qual era a expectativa de Sião? Ser coberta com “vestes de salvação”, “manto de justiça” e as joias do noivo (Is 61.10).

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo se vale da ideia de se vestir e se despir para falar de nossa salvação e, em especial, de nossa santificação – Rm 13.12-14, Ef 4.22-24 e 6.11, Cl 3.12. Nossa santificação é o nosso vestir-se de Cristo e nos despirmos do velho homem. Mesmo no fim, que na verdade é o novo começo, vemos um povo com vestes particulares (Ap 7.9-17)! “Quem são eles?” – pergunta um dos anciãos – os que lavaram “suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro”.

E então, qual a verdadeira moda evangélica? E por que será que nossa cultura se importa tanto com o que vestimos e, ainda mais, tem estimulado cada vez mais a nos despirmos?

Cauê Oliveira

Bem-aventurados os que choram (Mt 5.4)

Nossa geração é marcada pelo riso fácil, memes engraçados, stand up comedy e entretenimento barato. Não há espaço para o lamento legítimo diante do que deveria despertar a nossa comoção. Aliás, há uma insensibilidade em nossa época diante do hediondo. Essa realidade é percebida na igreja, na forma como muitos membros lidam com seus pecados, ao ponto de conviverem tranquilamente com eles, sem o mínimo pesar ou descontentamento. Não apenas isso, mas até mesmo se divertem com determinados comportamentos pecaminosos, gastando tempo entretendo-se com o que é imoral e ofensivo a Deus. Não há problemas em sorrir, mas é muito ruim sorrir do pecado.

O Senhor Jesus Cristo ensinou que “bem-aventurados são os que choram, porque serão consolados” (Mt 5.4). O homem verdadeiramente feliz é o que foi perdoado e justificado em Cristo Jesus (Rm4:7; Ap.19:9; 22:14) habitado pelo seu Espírito (1 Pe 4.14), e que anda no caminho da obediência (Sl 1). Um de seus distintivos é o choro diante do pecado, pois Deus sente prazer naquele que tem o coração quebrantado (Sl 51.17; Is 66.1-2), e Ele ordena chorar pelo pecado (Tg 4.8-10). A importância do choro é constatada pelo fato de haver um livro na Bíblia chamado Lamentações, também, por uma boa parte dos Salmos constituir de lamentos, e pelos diversos exemplos de homens de Deus lamentando por seus pecados e do povo (Is 6.5; Sl 32.3-4; Sl 119.136; Rm 7.24.). Sobretudo, destaca-se o exemplo de Jesus Cristo, que mesmo sem ter pecado chorou (Jo 11.35; Lc 19.41-42). É dito que nos dias da sua carne, Jesus se ofereceu “com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade” (Hb 5.7).

Ademais, podem ser destacadas mais algumas razões para chorar em face do pecado: 1. O pecado é uma ofensa contra Deus, é esperado que os filhos de Deus se entristeçam quando Deus é ofendido. 2. O pecado trouxe separação e miséria ao homem. 3. O choro é uma expressão do anseio da alma pelo seu Senhor e pelo livramento final. 4. O choro é uma expressão de angústia da alma por pecar contra um salvador tão bondoso.

Enfim, os que choram são felizes, porque em grande medida usufruem o consolo dado por Cristo, que os libertou do julgo e da condenação do pecado, e por possuírem o Espírito Consolador habitando neles. Entretanto, esse consolo será pleno quando cumprida a promessa de que não haverá mais choro, morte ou dor (Ap 7.17; 21.4). Contudo, é mister lembrar que só serão consolados os que choram. Que nossa vida seja marcada pela verdadeira alegria do choro que anseia viver completamente livre desse mundo caído, ao mesmo tempo que usufrui o contentamento que flui do Consolador presente em nossa habitação.

Sola Gratia

Lic. Paulo Ricardo