Atenção aos Padrões Defeituosos

Casar não é uma prioridade em nossa cultura. Na verdade é o namoro quem tem ganhado a primazia como um tipo de relacionamento quase que essencial para a experiência humana – uma fase da vida para experimentar de maneira mais leve a oportunidade para se divertir no “amor” antes do casamento ou ser o seu substituto. Namorar é sim um estilo de vida que envolve atitudes e valores da contemporaneidade.

Algumas crianças ficam espantadas quando um amiguinho de sua idade confessa que nunca deu um beijo na boca de ninguém; adultos tripudiam dos jovens que ainda não ficaram a “sós” com suas namoradas; e casais se surpreendem quando solteiros de sexo oposto “curtem” juntos coisas em comum sem, contudo, nenhum tipo de romance. Ou seja, vivemos em uma cultura que exalta a intimidade sem compromisso, confunde sexo com amor e despreza a amizade.

Infelizmente, sob a influência maior das disposições mentais do mundo do que dos padrões bíblicos, passamos a tratar o namoro como um simulacro, uma cópia que tenta reproduzir benefícios do casamento sem, contudo, priorizar o que agrada a Deus. Um tipo de relacionamento que, baseado mais na atração física e nos sentimentos, continuará deficiente, a menos que renovemos nosso modo de pensar.

Não é de causar espanto que temos perdido espaço no debate sobre este tema, porque os esforços concentraram-se em como deve ser o namoro e quais os seus limites e, consequentemente, deixamos de lado algo muito importante: examinarmos os padrões de pensamento defeituosos já presentes entre o nosso povo.

Muito se fala acerca dos limites necessários e sobre os perigos que envolvem namorar. Porém, lidamos com o seguinte quadro: o namoro cristão é aceito como uma preparação, um período de transição entre duas pessoas envolvidas em um relacionamento amoroso, de intimidade física e certo grau de compromisso. Isso tem levado os cristãos em uma direção perigosa: buscar a emoção de um romance e não um compromisso duradouro.

Se não estivermos atentos, muitos cristãos solteiros desejarão apenas os benefícios emocionais e físicos da intimidade com pouco, ou quase nenhum, pensamento sobre a responsabilidade de um compromisso real. Não serão capazes de olhar para o outro como um possível parceiro para toda a vida e nem avaliarão as responsabilidades do casamento segundo a Escritura.

Se existe algo cristalino é o fato de que precisamos considerar a vontade de Deus afim de vivermos para agradá-lo. Portanto, a menos que saibamos identificar a tendências perigosas de um namoro, seguiremos reproduzindo os padrões defeituosos deste mundo caído.

Bruno Souza

Os Solteiros são Seres Incompletos?

Em nossas Igrejas, normalmente, os solteiros são vistos como pessoas incompletas que somente estarão realizadas quando encontrarem sua “alma gêmea”. Ainda que você não tenha lido “O Banquete”, a ideia da “alma gêmea” está presente no modo como eventualmente lidamos com a solteirice.

Platão, em “O Banquete”, antes de definir o amor, precisa dizer o que é a natureza humana. Segundo crê, os seres humanos eram inicialmente um só gênero em um único ser que possuía dois pares de cada membro. Neste conto, tais seres eram “de uma força e de um vigor terríveis”, e porque tinham “uma grande presunção”, rebelaram-se contra os deuses e tentaram subir até o céu. Zeus precisava enfraquecê-los e acabou cortando-os em dois, separando-os pelo meio. Assim, passaram a andar eretos sobre duas pernas como seres incompletos.

Explica Platão: “[…] desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro”. Então, segundo este conceito, a natureza humana se define pelo anseio de encontrar a própria metade.

Lembrei-me de uma música: “Carne e unha, alma gêmea, bate coração. As metades da laranja, dois amantes dois irmãos. Duas forças que se atraem […]”. O compositor está simplesmente refletindo uma percepção popularmente platônica de que seres humanos seguirão incompletos até que encontrem sua “cara metade”. Assim, ardendo de paixão romântica, não desejam fazer outra coisa, senão, alimentarem-se de seus afetos para viver daquilo que chamam de “amor”.

Parece que, neste caso, temos sido pautados mais pela visão de mundo platônica do que propriamente bíblica. É possível que estejamos mais do que apenas refletindo um anseio por relacionamentos, porque “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18). Abaixo disto, creio eu, encontra-se uma tentativa humana que recusa estar completo simplesmente em Deus (Ct 6:3; Hb 8:10). Então, apesar de não estarmos pecando quando ansiamos pelo casamento, podemos ser culpados de mau uso do privilégio de sermos solteiros esquecendo-nos de que já temos companhia (Is 54:5; Ez 16:8).

Quem é solteiro dê graças a Deus por isso, embora siga desejando casar-se. Contudo, não permita que a insatisfação o encoraje ao uso indevido desta liberdade, pois, quando permitimos que um desejo por algo que Deus obviamente ainda não nos deu (casamento), roube a nossa habilidade de aproveitar e apreciar o que ele já nos deu (ser solteiro), facilmente somos derrotados pelas tentações.
Deus quer que estejamos contentes, mesmo que tenhamos desejos não satisfeitos. Nisto aprendemos que a vida não consiste apenas na realização amorosa. Assim, ao invés de aproveitarmos as qualidades únicas de estar solteiro, perdemos o foco concentrando-se naquilo que ainda não possuímos.

Bruno Souza

Acostumado com o Pecado

As pessoas têm a capacidade de se acostumar com situações absurdas. Você sabe que aqui em São Luís o esgoto “brota” da encanação de muitas ruas. É verdade, também, que muitos se acostumaram a reclamar todos os dias. (Talvez reclamar seja uma forma de manter-se inconformado com a situação – uma forma de manutenção de uma indignação hipócrita que mascara o fato de que seu esgoto sem tratamento também está ligado àquela tubulação). Outros, já acostumados com o cheiro e com a ideia de que isso não é da responsabilidade de ninguém além do poder público, passam tranquilamente a pé ou de carro pelos dejetos que fluem de alguns desses pontos.

Estes exemplos ajuda-nos a ilustrar a realidade de que temos a capacidade de nos acostumarmos com qualquer coisa, até mesmo com o pecado.
Existe uma passagem que precisamos considerar: “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1:8-9).

Antes de mais nada, negar a afirmação bíblica de que todos pecaram (Rm 3:23) não anulará o fato de que se é um pecador, pois, assim como o esgoto está na rua, ainda que o seu cheiro seja ignorado, o pecado está no homem. Todas as disposições e arranjos para a redenção do homem implicam que ele é um pecador e está perdido.

O perdão ratifica a condição perdida e necessitada de todos, mas se alguém não pecou, essas declarações bíblicas seriam falsas e, por isso, a redenção teria como base uma falsidade. Assim, quando negamos que somos pecadores, e nos acostumamos com essa ideia, certamente vivemos em um autoengano e “a verdade não está em nós”.

Este autoengano pode funcionar de algumas maneiras. (1) Por comparação, ou seja, quando o pecador observa a si mesmo e conclui que as outras pessoas são bem piores naquilo que fazem do que ele. (2) Por compensação, ou seja, em virtude de “boas ações” praticadas é como se criasse um fundo de reservas ou de crédito para a compensação contra os pecados. O fundamento é, portanto, o mérito pessoal que funciona para contrabalancear os leves “deslizes”.

Em contraste com a negação do pecado, João destaca que, em consequência da genuína confissão pessoal dos pecados, Deus nos perdoa de suas penalidades espirituais, nos liberta de sua culpa e nos livra da condenação. Quão completa e graciosamente Deus nos perdoa!

A esperança é que não sejamos tolos o suficiente para incorrer no perigo de nos acostumarmos com o pecado ou, ainda pior, negarmos a sua presença. Perigosamente, a gente acaba se acostumando, não é verdade? Que confessemos os nossos pecados e recebamos as bênçãos do perdão e da santificação.

Bruno Souza

Cuidado com a Língua de Fogo

Nenhum ser humano vive neste mundo sem que nunca tenha errado ao fazer uso da fala. Não estou me referindo ao uso da língua portuguesa na oratória! Tenho em mente a declaração feita por Tiago em sua epístola, na qual se lê: “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo” (3:2).

Contextualmente, Tiago dirige-se aos mestres alertando-os ao perigo da língua, pois, conforme desenvolvem seus dons no exercício da fala, devem estar atentos ao discursos vazios. Se professam possuir sabedoria, a preocupação dos mestres não reside na riqueza da linguagem ou no uso eloquente dos vocábulos. Assim, para Tiago, a verdadeira religião não consiste em apenas ouvir sermões, em somente crer, nem mesmo em falar palavras bonitas. Mas, em praticar o que se ouve, realizar as obras decorrentes da fé e dominar a língua.

Devemos cuidar para que nosso coração não nos engane, já que um coração que se engana desvia-se de Deus e da verdade (Is 44:20). Se não tomarmos cuidado com a língua, nossas conversas podem rapidamente se tornar perigosas e causar muitos danos. Lidamos com muitos pecados, mas aqueles que se tornam audíveis são como um espelho que refletem a corrupção que há dentro de nós. Podemos esconder os que são cometidos internamente, mas os pecados da nossa fala expõem-nos à vergonha aos olhos dos outros.

Então, podemos dizer que as palavras frívolas são os nossos pensamentos pecaminosos verbalizados. Elas se tornam conhecidas quando ultrapassam a cortina de privacidade construída por Deus em torno da mente e passam a gotejar o pensamento ímpio e louco que há dentro de nós através da voz. Ou seja, quando os pensamentos são vestidos pelos trajes da linguagem, eles removem esta cortina de silêncio e chegam ao mundo exterior. E, conforme nos alerta Tiago, o Cristianismo de pessoas que não refreiam a língua em nada se difere do procedimento de gente ímpia. Assim é que, “Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã” (Tg 1:26), ou seja, para nada serve, é inútil.

Ficamos sabendo que a boca reflete o coração. Se sua língua expele descontroladamente coisas ruins, isso mostra o que realmente governa sua vida. Mas há diretrizes práticas para refreá-la e melhorar o tom de nossas conversas. Por exemplo, tentar conduzir os pensamentos uns dos outros para Deus e cultivar o hábito de falar e pensar teologicamente. Sobre isso escreveu Malaquias: “Então, os que temiam ao SENHOR falavam uns aos outros; o SENHOR atentava e ouvia; havia um memorial escrito diante dele para os que temem ao SENHOR e para os que se lembram do Seu nome” (Ml 3:16).

Tiago compara a língua a uma espécie de animal muito selvagem que foge ao controle humano. Tenhamos em mente, contudo, que a língua é um mal incontido somente quando é inflamada pelo fogo do inferno (3:6). Assim, somente pelo poder do Espírito Santo seremos capazes de dominá-la. Que Ele nos ajude!

Bruno Souza

Sentimental demais…

Cristo reflete emoções divinas e humanas como Mediador, que uniu em si mesmo ambas as naturezas. Jesus chorou no túmulo de seu amigo Lázaro, pois se entristeceu (Jo 11:35) – embora soubesse que levantaria Lázaro dentre os mortos. Também, quando viu as pessoas cansadas e desgarradas como ovelhas sem pastor, seu coração ficou comovido por eles (Mt 9:35-36). Ele foi tocado pelos sentimentos e preocupou-se com suas vidas, mas nunca exageradamente.

Não encontramos um único relato de “destempero” do nosso Senhor. A sua humanidade nos permite contemplar como seria a nossa, caso não houvesse sido manchada pelo pecado. Então, quando consideramos os sentimentos, Jesus nos mostra que o problema da humanidade não está em sermos humanos, mas em sermos pecadores. A queda, portanto, afetou profundamente o modo pelo qual sentimos o mundo e, por causa disso, devemos ser cautelosos.

Um perigo real encontra-se em deslocar o fundamento da nossa fé em Cristo para os nossos sentimentos. Albert Mohler nos orienta dizendo: “Há um doce e genuíno aspecto emocional na fé cristã, e Deus nos fez criaturas emotivas e sentimentais. Mas não podemos confiar em nossos sentimentos. Nossa fé não está ancorada em nossos sentimentos, mas nos fatos do Evangelho.”

Qualquer emoção em exagero acabará por cegar-nos. O medo de Elias o fez perder de vista a recente vitória triunfante sobre os profetas de Baal. O desejo inflamado de Davi, o “homem segundo o coração de Deus”, o conduziu a adulterar com Bate-seba e planejar a morte de seu marido, Urias. O amor pelo dinheiro levou Judas a trair o Senhor. Raivoso, Pedro sacou da espada e decepou a orelha de Malco, o servo do sumo sacerdote Caifás. Saulo de Tarso, cheio de zelo, porém sem entendimento, perseguiu a Igreja de Cristo e participou do martírio de Estêvão, servo de Deus. Enfim, os sentimentos exagerados desvirtua os fatos e desfigura a verdade.

Alguém sentimental demais jamais será moderado em suas paixões. Inclusive, no sentimentalismo há uma tendência exibicionista. As emoções ganharam status de troféus na vitrine da feira das vaidades. Então, chorar por qualquer motivo faz com que as pessoas se considerem mais humanas simplesmente porque a comoção tornou-se sinônimo de virtude enquanto que a reflexão consciente foi rebaixada, tristemente, à categoria de insensibilidade.

Assim, uma pessoa sensível não é sinônimo de chorona. De igual forma, o contrário do sentimentalista não é um ogro grosseiro e brucutu, mas um homem moderado em suas paixões. Ao jovem Timóteo o apóstolo Paulo escreveu dizendo: Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor (2 Tm 2:22).

Bruno Souza