Veneno no Calcanhar

Hoje, em uma pequena cidade do interior da Bahia, o sol não conseguirá dissipar as densas trevas do sofrimento e luto na vida de algumas pessoas: morreu a pequena Pâmela!

Pisou numa serpente venenosa enquanto brincava com duas amigas da Igreja. A cobra jararaca, uma intrusa, estava escondida e abrigada dentro de casa. Quando ofendida pela pisada, a cobra inoculou seu veneno nocivo no calcanhar da criança, que gritou assustada.

Levada ao hospital, segundo relatos, recebeu anti-inflamatório e soro fisiológico para, enfim, ser mandada de volta para casa. Foi tratada como uma possível vítima de um “arranhão” causado durante a brincadeira.

Não bastaram o testemunho sobre a picada, as marcas, e nem o corpo da víbora, cuja cabeça foi achatada por um transeunte. Silentes, os familiares acataram a palavra do “especialista” e retornaram conformados.

As consequências da picada logo se apresentaram: inicialmente, um inchaço na perna, seguido de mudança de coloração, inflamação e hemorragia. A pequena lidava com a dor e o medo de ter de retornar ao hospital. Enquanto isso, permanecia em casa, e, ao ser questionada, dizia estar tudo bem. Pobre Pâmela!

Passados poucos dias, deu entrada na Emergência, agora para não mais ser vista nessa vida. O terrível veneno atingiu seus órgãos vitais e, tendo afetado o cérebro, fez romper o “fio de prata […] e se quebrou o cântaro junto ao poço” (Ec 12:6). Apagada foi a sua luz “debaixo do sol”. Hoje é dia de trevas (Ec 11:8), um dia amargamente cinza.

Fui pastor deles e fiquei pensando: se eu estivesse lá, ao lado dos pais, o que diria?

Pensei no dia em que, no Gólgota, o nosso Senhor Jesus Cristo não estava numa brincadeira inocente quando foi ferido de morte em seu calcanhar. Jesus ficou só, pois seus companheiros mais próximos silenciaram-se e fugiram aterrorizados. Os soldados “especialistas” ofereceram um paliativo contra a dor mortal que suportava na rude cruz. Ele se recusou a ignorar os efeitos do veneno em seu corpo santo e suportou ser desamparado – Ele sim, porque nós nunca conseguiríamos.

Jesus morreu e voltou para casa: voltou para os braços do Pai. Podemos ter essa esperança na casa do luto. Esperança que raiou desde o Éden, quando o sol se tornou escuro pelo pecado e nos tornou mortos pela ação do seu veneno. Ali o sol da justiça brilhou trazendo expectativa de redenção: “Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar (Gn 3:15)”. Um calcanhar exposto, ferido e acometido – mas do qual veio o golpe fatal sobre a víbora sagaz (Gn 3:1).

Jesus venceu a morte e foi preparar-nos lugar. Este lugar no qual a jovem Pâmela foi recebida como uma filha que volta para casa (Sl 116:16). Por isso, mesmo na casa do luto, “se cremos que Jesus morreu e ressuscitou”, confiamos que “assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem” (1 Ts 4:14).

Bruno Souza

O Rugido do Pequeno Simba

Costumava brincar de ser meu pai. Quando ninguém estava olhando eu calçava seus sapatos, pois amava a ideia de que um dia meus pés seriam daquele tamanho. Vestia alguma de suas camisas, no cinto ajeitava a bainha do facão que ele levava consigo durante nossas idas à roça e entrava na pick-up Willys, Ford F-75, sonhando com o dia em que eu mesmo dirigiria aquele carro trajando as roupas do meu pai.

Uma das coisas mais infantis dessa fase da minha vida foi acreditar que os adultos eram verdadeiramente livres para fazerem o que desejassem. Assim, vestir-me de meu pai proporcionava-me a sensação de que eu poderia antecipar essa vantagem do seu mundo. Não sei se toda criança pensa desta forma, porém, um certo dia, meu pequeno Daniel disse à mesa: Pai, eu quero ser adulto logo! Olhei e perguntei: Mas, porque você quer crescer logo meu filho?Meu pequeno Daniel devolveu o olhar e disse: Quero crescer logo para fazer o que eu quiser!

Se fosse hoje eu diria: Assim falou o pequeno Simba! Estou falando daquele leãozinho do filme O Rei Leão, o filho do grande Mufasa. O Simba que, desejando ser igual ao seu pai, desobedece as suas ordens e coloca-se em perigo para provar que não é mais um filhote. Ele é o filho do rei e, por isso, o sucessor legítimo do seu trono.

Na cabeça do pequeno Simba, ser rei significava poder fazer qualquer coisa – inclusive mandar em todos. Uma espécie de passaporte para não seguir ordens de ninguém, tradições e nem tão pouco dar satisfação de suas ações. Ele segue cantando uma canção enquanto quer despistar o pássaro Zazu, o encarregado de sua proteção. Uma canção que evidencia o seu desejo de reinar por um propósito: ser livre para viver conforme pensa que a vida deveria ser.

Essa história não é original! Conhecemos outra – e ela não é obra de ficção! Quando tentados pela serpente, Adão e Eva se deixaram levar pela mentira diabólica de que a desobediência promove benefícios. Eles cobiçaram ser “como Deus” (Gn 3:5) e o resultado foi devastador para toda a humanidade. No lugar de seguirem nus (Gn 2:25), fizeram para si roupas para cobrir suas vergonhas (Gn 3:7). Se não fosse pela iniciativa Dele colocar outra roupa mais aceitável neles, ambos jamais poderiam desfrutar de sua companhia novamente (Gn 3:21).

Pensei na simplificação infantil pela qual uma criança percebe o mundo e lembrei que, mesmo sendo adulto, ainda me comporto assim. Por isso, ainda ouço aqui e acolá os rugidos agudos do pequeno Simba. Contudo, há um rugido mais grave, potente e com amplitude superior…um rugido de um Leão que enfrentou as hienas oferecendo-se a si mesmo em nosso lugar. Um Leão, este sim, o verdadeiro Rei, cujas roupas nos foram dadas para que pudéssemos ser aceitos em sua presença. A qual dos “rugidos” você tem dado mais ouvido ultimamente?

Bruno Souza

Movimente-se

As inscrições para os vestibulares do Brasil se aproximam, mas você não faz a mínima ideia de qual faculdade fazer? A formatura finalmente chegou, entretanto você não está certo se vai seguir a carreira ou viver de arte? Uma oportunidade de ganhar dinheiro fora de sua área de formação surge e você se “pegou” pensando nos recursos, no tempo, e em todo sacrifício que sua família teve para te sustentar na Universidade?

Se eu consegui chamar a sua atenção, provocando certa inquietação por causa dos dilemas acima apresentados, ainda que não seja exatamente a sua situação atual, agora seria o momento certo para te dizer: “Não se preocupe, tudo dará certo, mesmo se der errado!” Acho que você percebeu a ironia, não é mesmo?

O otimismo ingênuo grita as frases daquela nossa “caixinha de promessas” quando tentamos embalar o nosso coração que segue afligido pelas dúvidas, assaltado pelos dilemas da vida. É como disse o sábio: Como quem se despe num dia de frio e como vinagre sobre feridas, assim é o que entoa canções junto ao coração aflito (Pv. 25:20). A gente não quer ouvir que as coisas podem dar errado e, a solução é sufocar de alguma forma esse sentimento.

Em situações assim, o que deveríamos fazer? Eu diria: Movimente-se! O que seria a variação resumida de outro conselho: “acorde cedo, tome banho frio, não reclame e faça algo de útil”. Não estou falando de exercício físico na academia, porque seria meramente uma receita de endorfina – seria o atestado de que ignorei o conselho do sábio e acabei oferecendo música “dor de cotovelo” para quem sofre. Antes, tenho em mente o encorajamento bíblico que nos chama ao trabalho diligente. Tenho em mente Eclesiastes 11:6 que diz: Semeia pela manhã a tua semente e à tarde não repouses a mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela ou se ambas igualmente serão boas.

Salomão acende a luz do nosso quarto escuro, onde estamos paralisados, para nos lembrar de que não conhecemos todas as circunstâncias ligadas aos nossos esforços e para desmentir a frase “a determinação de hoje é o sucesso de amanhã”. Afinal de contas, lançar a semente não é garantia de que haverá colheita.

Devemos nos conscientizar de que ninguém é capaz de analisar, de sondar os detalhes específicos da obra de Deus (Ec 8:17). Em alguma medida teremos de lidar em nossa caminhada com fatores desconhecidos e imprevisíveis, com os riscos de receber uma ordem de Deus para sair de sua parentela e ir para uma terra que ainda lhe será mostrada (Gn 12:1). O que Abrão fez? “Partiu, pois, Abrão, como lho ordenara o SENHOR” (v.4).

O homem que insiste em esperar sempre por condições favoráveis antes de agir na vida, nunca fará coisa alguma. Ouça o sábio: Quem somente observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará (Ec 11:14). Assim, o serviço é a nossa responsabilidade, mas os resultados pertencem a Deus.

Bruno Souza

Deus é a origem de nossa proteção

Existem alguns sinais visíveis que comprovam a presente sensação de insegurança. Andando por São Luís, por exemplo, já reparou na altura dos muros das casas e condomínios? Na espessura dos fios usados nas cercas elétricas? Notou a quantidade de arame farpado disposto sobre os muros? É! Contratamos seguranças até mesmo para ficarem na porta das nossas Igrejas.

É verdade que o Estado tem como função primordial o dever de zelar pela segurança e socorrer os seus cidadãos. O problema é que ele não é onipresente – e nem pode ser. Este clima de insegurança aumenta devido à sua ausência, ainda mais quando assistimos a audácia dos marginais sendo alimentada pela certeza da impunidade. Pior ainda é ver bandido fortemente armado sendo tratado como vítima da sociedade, enquanto os cidadãos de bem permanecem encarcerados dentro dos muros e grades do condomínio.

Como cristãos, estamos cientes de que vivemos num mundo caído, onde o homem pecador é por natureza um predador. Então, porque o Estado falha, investimos muito dinheiro na sofisticação da vigilância privada na tentativa de prover maior segurança a nossa família e propriedades. Se os guardas podem ser vencidos pelo sono em serviço, a solução foi criar câmeras de segurança, sensores de movimento e monitoramento remoto 24 horas.

Sabemos muito bem que a vida está cheia de perigos em potencial e, mesmo com todas as precauções, precisamos assumir o risco de que não estaremos 100% isentos da ferrugem que corrói nosso tesouro, do ataque das pragas à nossa lavoura ou livres do ladrão. Assumamos este risco! Contudo, tenhamos a certeza de que a proteção de Deus é páreo para cada um deles.

Somos encarregados por Deus a proteger a família, os bens e o bem-estar pessoal contra qualquer violência indevida que impeça o progresso do Reino de Deus. Mas, a ironia disso tudo é que “se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Sl 127:1). O problema existe quando depositamos nossa confiança última no Estado, ou nos esquemas sofisticados de segurança, esquecendo-nos de que “o meu socorro vem do SENHOR, que fez o céu e a terra” (Sl 121:2).

Agora, confiar no socorro cuja origem é o Senhor não anula o nosso direito a segurança, a autodefesa necessária para a sobrevivência, e nem o nosso dever de erguer muros e cercas. Sem dúvida alguma Deus pode nos proteger sem meios, como ele fez com Daniel livrando-o na cova dos leões. Ou ele pode nos proteger através de armas, como fez com Davi e o uso habilidoso de uma funda contra Golias. Em ambos os casos, foi Deus quem protegeu seus servos.

No Salmo 121 o salmista descreve o Senhor como uma pessoa poderosa, atenciosa e protetora. Assim, aprendemos que Deus é nossa fonte de proteção, quer faça direta e sobrenaturalmente, quer faça através de algum meio natural para nos proteger, tal como lei, segurança privada, muros, ou uma Magnum 357.

Bruno Souza

Crianças brincando com navalha

O conceito de liberdade em nossos dias fundamenta-se na ideia de que ela é uma mera habilidade de um indivíduo em fazer valer os seus caprichos. Se liberdade é isso, estamos falando de uma ideia um tanto quanto rasa, infantilizada e que mal consegue capturar as complexidades da existência humana, pois, ignora o fato de que Deus estabeleceu limites, impôs barreiras, levantou seus muros e, por certo, “Ele frustra as maquinações dos astutos, para que as suas mãos não possam realizar seus projetos” (Jó 5:12).

Um homem cujo apetite é a sua lei, nos chama a atenção não como alguém liberto, porém escravizado. Conforme disse o apóstolo Paulo aos romanos: “Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a quem obedeceis sois servos, seja do pecado para a morte ou da obediência para a justiça?” (Rm 6:16).

Deste modo, o homem escravizado a seus caprichos, tem a pretensão ilusória de que o mundo se curve diante dele. Para isso, lança mão a qualquer método manipulatório, falsificando a realidade ao seu redor, para que tudo gravite em torno da satisfação de suas vontades. É como uma criança birrenta que deseja brincar com uma afiada navalha e chora com raiva do Pai porque lhe impôs limites. Reagindo aos limites um filho rebelde será capaz de até mesmo dizer que o seu pai está morto.

Neste afã, o homem negará a existência de Deus convencido de que, se houver um Deus, tanto pior para ele, pois Deus tornar-se-ia uma barreira que o impediria de desfrutar dos prazeres. Para Theodore Dalrymple, “primeira exigência da civilização é que os homens estejam dispostos a reprimir seus instintos e apetites mais baixos: falhar nisso faz deles, precisamente porque são inteligentes, muito piores que meras bestas”.

Pode parecer absurdo, como de fato é, considerarmos que Deus não existe. Um cristão de verdade não chegará a tal encruzilhada (Sl 14:1). Todavia, ainda que não neguemos o Senhor, algumas vezes nos iludimos com o fato de que Ele pode nos obedecer – de que Deus pode se curvar diante de nós e satisfazer todos os nossos caprichos perigosos, assim como um pai sem autoridade sobre um filho podre de mimado. Ledo engano!

Quando crianças querem brincar com navalhas, o Pai estabelece limites protetivos e os filhos devem aprender a lidar com as frustrações. Portanto, negar que o Pai não existe é arriscar-se ao perigo da lâmina afiada dos próprios caprichos. Crianças brincando com navalhas: assim comporta-se o homem escravizado aos próprios apetites!

Bruno Souza