Atenção aos Padrões Defeituosos

Casar não é uma prioridade em nossa cultura. Na verdade é o namoro quem tem ganhado a primazia como um tipo de relacionamento quase que essencial para a experiência humana – uma fase da vida para experimentar de maneira mais leve a oportunidade para se divertir no “amor” antes do casamento ou ser o seu substituto. Namorar é sim um estilo de vida que envolve atitudes e valores da contemporaneidade.

Algumas crianças ficam espantadas quando um amiguinho de sua idade confessa que nunca deu um beijo na boca de ninguém; adultos tripudiam dos jovens que ainda não ficaram a “sós” com suas namoradas; e casais se surpreendem quando solteiros de sexo oposto “curtem” juntos coisas em comum sem, contudo, nenhum tipo de romance. Ou seja, vivemos em uma cultura que exalta a intimidade sem compromisso, confunde sexo com amor e despreza a amizade.

Infelizmente, sob a influência maior das disposições mentais do mundo do que dos padrões bíblicos, passamos a tratar o namoro como um simulacro, uma cópia que tenta reproduzir benefícios do casamento sem, contudo, priorizar o que agrada a Deus. Um tipo de relacionamento que, baseado mais na atração física e nos sentimentos, continuará deficiente, a menos que renovemos nosso modo de pensar.

Não é de causar espanto que temos perdido espaço no debate sobre este tema, porque os esforços concentraram-se em como deve ser o namoro e quais os seus limites e, consequentemente, deixamos de lado algo muito importante: examinarmos os padrões de pensamento defeituosos já presentes entre o nosso povo.

Muito se fala acerca dos limites necessários e sobre os perigos que envolvem namorar. Porém, lidamos com o seguinte quadro: o namoro cristão é aceito como uma preparação, um período de transição entre duas pessoas envolvidas em um relacionamento amoroso, de intimidade física e certo grau de compromisso. Isso tem levado os cristãos em uma direção perigosa: buscar a emoção de um romance e não um compromisso duradouro.

Se não estivermos atentos, muitos cristãos solteiros desejarão apenas os benefícios emocionais e físicos da intimidade com pouco, ou quase nenhum, pensamento sobre a responsabilidade de um compromisso real. Não serão capazes de olhar para o outro como um possível parceiro para toda a vida e nem avaliarão as responsabilidades do casamento segundo a Escritura.

Se existe algo cristalino é o fato de que precisamos considerar a vontade de Deus afim de vivermos para agradá-lo. Portanto, a menos que saibamos identificar a tendências perigosas de um namoro, seguiremos reproduzindo os padrões defeituosos deste mundo caído.

Bruno Souza

Os Solteiros são Seres Incompletos?

Em nossas Igrejas, normalmente, os solteiros são vistos como pessoas incompletas que somente estarão realizadas quando encontrarem sua “alma gêmea”. Ainda que você não tenha lido “O Banquete”, a ideia da “alma gêmea” está presente no modo como eventualmente lidamos com a solteirice.

Platão, em “O Banquete”, antes de definir o amor, precisa dizer o que é a natureza humana. Segundo crê, os seres humanos eram inicialmente um só gênero em um único ser que possuía dois pares de cada membro. Neste conto, tais seres eram “de uma força e de um vigor terríveis”, e porque tinham “uma grande presunção”, rebelaram-se contra os deuses e tentaram subir até o céu. Zeus precisava enfraquecê-los e acabou cortando-os em dois, separando-os pelo meio. Assim, passaram a andar eretos sobre duas pernas como seres incompletos.

Explica Platão: “[…] desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro”. Então, segundo este conceito, a natureza humana se define pelo anseio de encontrar a própria metade.

Lembrei-me de uma música: “Carne e unha, alma gêmea, bate coração. As metades da laranja, dois amantes dois irmãos. Duas forças que se atraem […]”. O compositor está simplesmente refletindo uma percepção popularmente platônica de que seres humanos seguirão incompletos até que encontrem sua “cara metade”. Assim, ardendo de paixão romântica, não desejam fazer outra coisa, senão, alimentarem-se de seus afetos para viver daquilo que chamam de “amor”.

Parece que, neste caso, temos sido pautados mais pela visão de mundo platônica do que propriamente bíblica. É possível que estejamos mais do que apenas refletindo um anseio por relacionamentos, porque “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18). Abaixo disto, creio eu, encontra-se uma tentativa humana que recusa estar completo simplesmente em Deus (Ct 6:3; Hb 8:10). Então, apesar de não estarmos pecando quando ansiamos pelo casamento, podemos ser culpados de mau uso do privilégio de sermos solteiros esquecendo-nos de que já temos companhia (Is 54:5; Ez 16:8).

Quem é solteiro dê graças a Deus por isso, embora siga desejando casar-se. Contudo, não permita que a insatisfação o encoraje ao uso indevido desta liberdade, pois, quando permitimos que um desejo por algo que Deus obviamente ainda não nos deu (casamento), roube a nossa habilidade de aproveitar e apreciar o que ele já nos deu (ser solteiro), facilmente somos derrotados pelas tentações.
Deus quer que estejamos contentes, mesmo que tenhamos desejos não satisfeitos. Nisto aprendemos que a vida não consiste apenas na realização amorosa. Assim, ao invés de aproveitarmos as qualidades únicas de estar solteiro, perdemos o foco concentrando-se naquilo que ainda não possuímos.

Bruno Souza

Acostumado com o Pecado

As pessoas têm a capacidade de se acostumar com situações absurdas. Você sabe que aqui em São Luís o esgoto “brota” da encanação de muitas ruas. É verdade, também, que muitos se acostumaram a reclamar todos os dias. (Talvez reclamar seja uma forma de manter-se inconformado com a situação – uma forma de manutenção de uma indignação hipócrita que mascara o fato de que seu esgoto sem tratamento também está ligado àquela tubulação). Outros, já acostumados com o cheiro e com a ideia de que isso não é da responsabilidade de ninguém além do poder público, passam tranquilamente a pé ou de carro pelos dejetos que fluem de alguns desses pontos.

Estes exemplos ajuda-nos a ilustrar a realidade de que temos a capacidade de nos acostumarmos com qualquer coisa, até mesmo com o pecado.
Existe uma passagem que precisamos considerar: “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1:8-9).

Antes de mais nada, negar a afirmação bíblica de que todos pecaram (Rm 3:23) não anulará o fato de que se é um pecador, pois, assim como o esgoto está na rua, ainda que o seu cheiro seja ignorado, o pecado está no homem. Todas as disposições e arranjos para a redenção do homem implicam que ele é um pecador e está perdido.

O perdão ratifica a condição perdida e necessitada de todos, mas se alguém não pecou, essas declarações bíblicas seriam falsas e, por isso, a redenção teria como base uma falsidade. Assim, quando negamos que somos pecadores, e nos acostumamos com essa ideia, certamente vivemos em um autoengano e “a verdade não está em nós”.

Este autoengano pode funcionar de algumas maneiras. (1) Por comparação, ou seja, quando o pecador observa a si mesmo e conclui que as outras pessoas são bem piores naquilo que fazem do que ele. (2) Por compensação, ou seja, em virtude de “boas ações” praticadas é como se criasse um fundo de reservas ou de crédito para a compensação contra os pecados. O fundamento é, portanto, o mérito pessoal que funciona para contrabalancear os leves “deslizes”.

Em contraste com a negação do pecado, João destaca que, em consequência da genuína confissão pessoal dos pecados, Deus nos perdoa de suas penalidades espirituais, nos liberta de sua culpa e nos livra da condenação. Quão completa e graciosamente Deus nos perdoa!

A esperança é que não sejamos tolos o suficiente para incorrer no perigo de nos acostumarmos com o pecado ou, ainda pior, negarmos a sua presença. Perigosamente, a gente acaba se acostumando, não é verdade? Que confessemos os nossos pecados e recebamos as bênçãos do perdão e da santificação.

Bruno Souza

Cuidado com a Língua de Fogo

Nenhum ser humano vive neste mundo sem que nunca tenha errado ao fazer uso da fala. Não estou me referindo ao uso da língua portuguesa na oratória! Tenho em mente a declaração feita por Tiago em sua epístola, na qual se lê: “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo” (3:2).

Contextualmente, Tiago dirige-se aos mestres alertando-os ao perigo da língua, pois, conforme desenvolvem seus dons no exercício da fala, devem estar atentos ao discursos vazios. Se professam possuir sabedoria, a preocupação dos mestres não reside na riqueza da linguagem ou no uso eloquente dos vocábulos. Assim, para Tiago, a verdadeira religião não consiste em apenas ouvir sermões, em somente crer, nem mesmo em falar palavras bonitas. Mas, em praticar o que se ouve, realizar as obras decorrentes da fé e dominar a língua.

Devemos cuidar para que nosso coração não nos engane, já que um coração que se engana desvia-se de Deus e da verdade (Is 44:20). Se não tomarmos cuidado com a língua, nossas conversas podem rapidamente se tornar perigosas e causar muitos danos. Lidamos com muitos pecados, mas aqueles que se tornam audíveis são como um espelho que refletem a corrupção que há dentro de nós. Podemos esconder os que são cometidos internamente, mas os pecados da nossa fala expõem-nos à vergonha aos olhos dos outros.

Então, podemos dizer que as palavras frívolas são os nossos pensamentos pecaminosos verbalizados. Elas se tornam conhecidas quando ultrapassam a cortina de privacidade construída por Deus em torno da mente e passam a gotejar o pensamento ímpio e louco que há dentro de nós através da voz. Ou seja, quando os pensamentos são vestidos pelos trajes da linguagem, eles removem esta cortina de silêncio e chegam ao mundo exterior. E, conforme nos alerta Tiago, o Cristianismo de pessoas que não refreiam a língua em nada se difere do procedimento de gente ímpia. Assim é que, “Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã” (Tg 1:26), ou seja, para nada serve, é inútil.

Ficamos sabendo que a boca reflete o coração. Se sua língua expele descontroladamente coisas ruins, isso mostra o que realmente governa sua vida. Mas há diretrizes práticas para refreá-la e melhorar o tom de nossas conversas. Por exemplo, tentar conduzir os pensamentos uns dos outros para Deus e cultivar o hábito de falar e pensar teologicamente. Sobre isso escreveu Malaquias: “Então, os que temiam ao SENHOR falavam uns aos outros; o SENHOR atentava e ouvia; havia um memorial escrito diante dele para os que temem ao SENHOR e para os que se lembram do Seu nome” (Ml 3:16).

Tiago compara a língua a uma espécie de animal muito selvagem que foge ao controle humano. Tenhamos em mente, contudo, que a língua é um mal incontido somente quando é inflamada pelo fogo do inferno (3:6). Assim, somente pelo poder do Espírito Santo seremos capazes de dominá-la. Que Ele nos ajude!

Bruno Souza

Sentimental demais…

Cristo reflete emoções divinas e humanas como Mediador, que uniu em si mesmo ambas as naturezas. Jesus chorou no túmulo de seu amigo Lázaro, pois se entristeceu (Jo 11:35) – embora soubesse que levantaria Lázaro dentre os mortos. Também, quando viu as pessoas cansadas e desgarradas como ovelhas sem pastor, seu coração ficou comovido por eles (Mt 9:35-36). Ele foi tocado pelos sentimentos e preocupou-se com suas vidas, mas nunca exageradamente.

Não encontramos um único relato de “destempero” do nosso Senhor. A sua humanidade nos permite contemplar como seria a nossa, caso não houvesse sido manchada pelo pecado. Então, quando consideramos os sentimentos, Jesus nos mostra que o problema da humanidade não está em sermos humanos, mas em sermos pecadores. A queda, portanto, afetou profundamente o modo pelo qual sentimos o mundo e, por causa disso, devemos ser cautelosos.

Um perigo real encontra-se em deslocar o fundamento da nossa fé em Cristo para os nossos sentimentos. Albert Mohler nos orienta dizendo: “Há um doce e genuíno aspecto emocional na fé cristã, e Deus nos fez criaturas emotivas e sentimentais. Mas não podemos confiar em nossos sentimentos. Nossa fé não está ancorada em nossos sentimentos, mas nos fatos do Evangelho.”

Qualquer emoção em exagero acabará por cegar-nos. O medo de Elias o fez perder de vista a recente vitória triunfante sobre os profetas de Baal. O desejo inflamado de Davi, o “homem segundo o coração de Deus”, o conduziu a adulterar com Bate-seba e planejar a morte de seu marido, Urias. O amor pelo dinheiro levou Judas a trair o Senhor. Raivoso, Pedro sacou da espada e decepou a orelha de Malco, o servo do sumo sacerdote Caifás. Saulo de Tarso, cheio de zelo, porém sem entendimento, perseguiu a Igreja de Cristo e participou do martírio de Estêvão, servo de Deus. Enfim, os sentimentos exagerados desvirtua os fatos e desfigura a verdade.

Alguém sentimental demais jamais será moderado em suas paixões. Inclusive, no sentimentalismo há uma tendência exibicionista. As emoções ganharam status de troféus na vitrine da feira das vaidades. Então, chorar por qualquer motivo faz com que as pessoas se considerem mais humanas simplesmente porque a comoção tornou-se sinônimo de virtude enquanto que a reflexão consciente foi rebaixada, tristemente, à categoria de insensibilidade.

Assim, uma pessoa sensível não é sinônimo de chorona. De igual forma, o contrário do sentimentalista não é um ogro grosseiro e brucutu, mas um homem moderado em suas paixões. Ao jovem Timóteo o apóstolo Paulo escreveu dizendo: Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor (2 Tm 2:22).

Bruno Souza

Ecos do Jardim na Cidade dos Homens

É possível que seja exagerado, ou (para usar um sinônimo) hiperbólico, o que passarei a escrever. Mas, não é mentira! Se você não é casado(a) e nem tem filhos(as), acredite: quando for, investirá boa parte do tempo para que seu lar seja um paraíso, “um lugar de harmonia”.

Quando vocês casarem e tiverem seus filhos, inevitavelmente, ter um tempo de tranquilidade, estará entre os “top 5” da lista de coisas indispensáveis à vida – ficando atrás apenas de Deus, respirar, beber água e trabalhar. Não se importará tanto com os brinquedos espalhados pela sala ou com a louça do almoço ainda suja na pia. Desde que não haja barulho, tumulto e nem perturbações, as demais coisas tornam-se suportáveis.

Esforços não serão poupados para transformar o lar em um pedaço repousante do Éden. Desde livros, vídeos sobre casamento e criação de filhos, palestras, “feng chui” para harmonizar a “energia” dos ambientes, enfim, muito se fará para que o tão sonhado estado de “céu na terra” seja finalmente estabelecido.

Em tempo aprenderá que esforços não podem simplesmente criar aquilo que somente Deus tem poder para chamar à existência através da sua Palavra. Os ecos do paraíso soarão dentro de você até que, enfim, somente na consumação, todos nós, os crentes, desfrutaremos de maneira plena da tranquilidade e da paz pela qual lutamos. Ou seja, até que isso aconteça, você não viverá sem aflições, sem perturbações, ou inquietações.

O problema não está no Éden! Muito pelo contrário! Estaria se fosse possível estabelecê-lo de verdade em nosso lar. Quero dizer que não é por causa do paraíso em si e, sim, por causa dos seus moradores. Isso mesmo, por causa da gente!

O Éden funcionou até que seus habitantes pecaram. Após a queda o homem foi coberto por pele, banido do Jardim e proibido de entrar nele novamente. Então não adianta, em nossa versão de paraíso, andar vestido com roupas de baixo. Em casa a nudez é algo para locais específicos, reservados à privacidade e para quase ninguém ver. Por essas e outras, penso que nosso Éden é idílico, é uma memória afetiva que nos proporciona a esperança de uma casa em ordem, de um paraíso vindouro que ainda se concretizará com a segunda vinda de Cristo.

Apesar da queda ter devastado os lares, nosso Senhor providenciou algo capaz de gerar os frutos graciosos para a restauração das famílias. E é exatamente por causa disso, porque fomos salvos, é que perseguimos a ideia do paraíso, pois a salvação restaura o homem ao seu propósito original. Portanto, saiba lidar com os ecos do Jardim enquanto estiver na cidade dos homens.

Bruno Souza

Tal Pai, tal Filho

A criança nasce com aquela carinha de “joelho” e, após um primeiro olhar, os comentários fatalmente desembocam no assunto da vez: “se parece com quem?” A depender do contexto, os pais sentem um tremendo orgulho quando ouvem que seu filho se parece com eles. Buscam na aparência do bebê alguma marca familiar, algum sinal de que conseguiu imprimir na sua prole algo visível que o identifique como sendo, de fato, seu.

Ainda no hospital, parentes trazem consigo alguma foto de quando éramos criança no afã de provar a verossimilhança entre pai e filho. A apoteose consuma-se no exato momento em que, colocada a foto ao lado do bebê, os olhares se desviam para o pai e o suspense é quebrado quando ouve-se triunfante a seguinte frase: “Tal pai, tal filho!”

Com a chegada dos filhos ocorre uma mudança sutil em nós que se mostrará a partir de um comportamento quase imperceptível durante o exercício da paternidade. Falo do equívoco de pensarmos que nossos filhos devem se parecer exclusivamente conosco, isso porque achamos que eles nos pertencem. Ou seja, sendo a cara do pai, ou não, muitas são as formas utilizadas para imprimir nossas “marcas” nos filhos. Então, o sucesso deste empreendimento confirma-se quando a frase aguardada é, finalmente, pronunciada: “Ele é a sua cara!”

A paternidade motivada pela ideia de que os filhos são posses, incorre no erro de empregar-se esforços, tempo e recursos para conduzi-los em uma trajetória de vida moldada pelos desejos pessoais dos pais e não de Deus. Consequentemente, agindo dessa forma, deixamos de lado o fato de que ser pai é uma missão dada pelo Senhor (Gn 1:28; 3:16).

Se nos orgulhamos em ter filhos semelhantes a nós, fracassamos na missão de embaixador, já que, “o plano de Deus para os pais é que sejam agentes divinos na vida daqueles que foram criados segundo à sua imagem e confiados ao nosso cuidado” (Paul Tripp. Desafio aos pais: 2018, p.11).

Ora! Não precisamos fazer esforço para que as crianças se pareçam conosco, pois, conforme lemos em Gênesis, os filhos de Adão nascem “à sua semelhança, conforme a sua imagem” (5:3). O nosso esforço é contra o pecado de considerarmos os filhos como propriedades e criá-los para nós, conforme o caminho que nos parece ser o melhor à parte de Deus.

Esteja ciente: Os filhos são herança do Senhor (Sl 127:3) para o propósito dele. A nossa tarefa, portanto, é desejar aquilo que a vontade revelada de Deus nos dirige a ser e fazer, isto é, sermos embaixadores a serviço do Rei.

O sucesso da paternidade é servir a Cristo como uma ferramenta em suas boas mãos – ferramenta usada por Jesus para esculpir filhos à semelhança dele e não da nossa própria. Assim, que a alegria surja ao vermos as crianças imitando-nos naquilo que somos parecidos com Jesus Cristo (1 Co 11:1): Ele sim, tal qual o Pai! (Jo 10:30).

Bruno Souza

Falta um pedaço de mim

Parece que certos aspectos da nossa relação com Deus no Éden, ainda que tenham sido amputados pela Queda, seguem provocando em nós uma espécie de “fenômeno fantasma”.

Segundo a literatura médica, após uma amputação, o paciente sente a presença do membro ausente, e até seus movimentos, embora isso não seja mais possível. A explicação tem a ver com uma espécie de mapa do corpo presente em nosso cérebro. Desta forma, quando ocorre uma amputação, o mapa cerebral permanece e continua gerando a sensação de presença do membro mesmo na sua ausência. Tal sensação descrita como desagradável, é provavelmente gerada pela manutenção, no esquema cerebral, do membro fisicamente perdido.

Tenho a impressão de que nascemos com saudade de coisas das quais nunca vivemos e, de alguma forma, expressamos a sensação do “membro ausente” em muitas de nossas produções culturais. É intrigante perceber como os poetas conseguem sensivelmente destilar os anseios humanos por realidades nunca antes vividas. Talvez a canção mais popular que exemplifica bem o “fenômeno fantasma”, é a música Índios de Renato Russo. Em uma de suas estrofes lê-se: “E é só você que tem a cura pro meu vício / De insistir nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi”.

Não é de se estranhar que os poetas queiram encontrar aquilo que lhes falta, que desejem experimentar algo cuja raiz parece estar cravada no DNA, pois reconhecem a incapacidade de viver à sombra dessa ausência. Contudo, se esforçam inutilmente buscando em outros braços os abraços que tanto almejam. Os velhos costumes não se apagam facilmente – mesmo aqueles que tenham sido amputados pela traição. Aliás, muitas de nossas canções testemunham que o grande amor perdido não pode ser substituído por “casos” sem compromisso.

A nossa antiga relação com Deus em Adão é como o “fenômeno fantasma”. As próteses não apagam a sensação dessa ausência. Pelo contrário! São testemunhas de que os esforços substitutivos são meramente construções feitas por mãos humanas (Jr 10:3-5). Elas podem dar algum tipo de suporte, mas não passam de uma simulação (Sl 115:5-8). Apenas olhando percebe-se que não fazem parte da composição original e, por isso, sempre será estranha (Is 46:1,7).

A “dor do amputado”, esse fenômeno fisiológico, é tratável com terapia. O que parece persistir no âmago de cada ser humano: este não! Então, ainda que os poetas consigam traduzir em suas canções a sensação de nosso desassossego, somente em Jesus Cristo encontramos o pedaço que nos falta. Agora, a sua religação não se dá no nível dos ossos e medulas, nervos e músculos. Ele fala de uma videira na qual o Pai, o Agricultor (Jo 15:1), enxertará os ramos que foram cortados pela terrível ação do pecado (Rm 11:17-19). Portanto, Nele, e somente Nele, nossa saudade encontra esperança.

Bruno Souza

Veneno no Calcanhar

Hoje, em uma pequena cidade do interior da Bahia, o sol não conseguirá dissipar as densas trevas do sofrimento e luto na vida de algumas pessoas: morreu a pequena Pâmela!

Pisou numa serpente venenosa enquanto brincava com duas amigas da Igreja. A cobra jararaca, uma intrusa, estava escondida e abrigada dentro de casa. Quando ofendida pela pisada, a cobra inoculou seu veneno nocivo no calcanhar da criança, que gritou assustada.

Levada ao hospital, segundo relatos, recebeu anti-inflamatório e soro fisiológico para, enfim, ser mandada de volta para casa. Foi tratada como uma possível vítima de um “arranhão” causado durante a brincadeira.

Não bastaram o testemunho sobre a picada, as marcas, e nem o corpo da víbora, cuja cabeça foi achatada por um transeunte. Silentes, os familiares acataram a palavra do “especialista” e retornaram conformados.

As consequências da picada logo se apresentaram: inicialmente, um inchaço na perna, seguido de mudança de coloração, inflamação e hemorragia. A pequena lidava com a dor e o medo de ter de retornar ao hospital. Enquanto isso, permanecia em casa, e, ao ser questionada, dizia estar tudo bem. Pobre Pâmela!

Passados poucos dias, deu entrada na Emergência, agora para não mais ser vista nessa vida. O terrível veneno atingiu seus órgãos vitais e, tendo afetado o cérebro, fez romper o “fio de prata […] e se quebrou o cântaro junto ao poço” (Ec 12:6). Apagada foi a sua luz “debaixo do sol”. Hoje é dia de trevas (Ec 11:8), um dia amargamente cinza.

Fui pastor deles e fiquei pensando: se eu estivesse lá, ao lado dos pais, o que diria?

Pensei no dia em que, no Gólgota, o nosso Senhor Jesus Cristo não estava numa brincadeira inocente quando foi ferido de morte em seu calcanhar. Jesus ficou só, pois seus companheiros mais próximos silenciaram-se e fugiram aterrorizados. Os soldados “especialistas” ofereceram um paliativo contra a dor mortal que suportava na rude cruz. Ele se recusou a ignorar os efeitos do veneno em seu corpo santo e suportou ser desamparado – Ele sim, porque nós nunca conseguiríamos.

Jesus morreu e voltou para casa: voltou para os braços do Pai. Podemos ter essa esperança na casa do luto. Esperança que raiou desde o Éden, quando o sol se tornou escuro pelo pecado e nos tornou mortos pela ação do seu veneno. Ali o sol da justiça brilhou trazendo expectativa de redenção: “Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar (Gn 3:15)”. Um calcanhar exposto, ferido e acometido – mas do qual veio o golpe fatal sobre a víbora sagaz (Gn 3:1).

Jesus venceu a morte e foi preparar-nos lugar. Este lugar no qual a jovem Pâmela foi recebida como uma filha que volta para casa (Sl 116:16). Por isso, mesmo na casa do luto, “se cremos que Jesus morreu e ressuscitou”, confiamos que “assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem” (1 Ts 4:14).

Bruno Souza

O Rugido do Pequeno Simba

Costumava brincar de ser meu pai. Quando ninguém estava olhando eu calçava seus sapatos, pois amava a ideia de que um dia meus pés seriam daquele tamanho. Vestia alguma de suas camisas, no cinto ajeitava a bainha do facão que ele levava consigo durante nossas idas à roça e entrava na pick-up Willys, Ford F-75, sonhando com o dia em que eu mesmo dirigiria aquele carro trajando as roupas do meu pai.

Uma das coisas mais infantis dessa fase da minha vida foi acreditar que os adultos eram verdadeiramente livres para fazerem o que desejassem. Assim, vestir-me de meu pai proporcionava-me a sensação de que eu poderia antecipar essa vantagem do seu mundo. Não sei se toda criança pensa desta forma, porém, um certo dia, meu pequeno Daniel disse à mesa: Pai, eu quero ser adulto logo! Olhei e perguntei: Mas, porque você quer crescer logo meu filho?Meu pequeno Daniel devolveu o olhar e disse: Quero crescer logo para fazer o que eu quiser!

Se fosse hoje eu diria: Assim falou o pequeno Simba! Estou falando daquele leãozinho do filme O Rei Leão, o filho do grande Mufasa. O Simba que, desejando ser igual ao seu pai, desobedece as suas ordens e coloca-se em perigo para provar que não é mais um filhote. Ele é o filho do rei e, por isso, o sucessor legítimo do seu trono.

Na cabeça do pequeno Simba, ser rei significava poder fazer qualquer coisa – inclusive mandar em todos. Uma espécie de passaporte para não seguir ordens de ninguém, tradições e nem tão pouco dar satisfação de suas ações. Ele segue cantando uma canção enquanto quer despistar o pássaro Zazu, o encarregado de sua proteção. Uma canção que evidencia o seu desejo de reinar por um propósito: ser livre para viver conforme pensa que a vida deveria ser.

Essa história não é original! Conhecemos outra – e ela não é obra de ficção! Quando tentados pela serpente, Adão e Eva se deixaram levar pela mentira diabólica de que a desobediência promove benefícios. Eles cobiçaram ser “como Deus” (Gn 3:5) e o resultado foi devastador para toda a humanidade. No lugar de seguirem nus (Gn 2:25), fizeram para si roupas para cobrir suas vergonhas (Gn 3:7). Se não fosse pela iniciativa Dele colocar outra roupa mais aceitável neles, ambos jamais poderiam desfrutar de sua companhia novamente (Gn 3:21).

Pensei na simplificação infantil pela qual uma criança percebe o mundo e lembrei que, mesmo sendo adulto, ainda me comporto assim. Por isso, ainda ouço aqui e acolá os rugidos agudos do pequeno Simba. Contudo, há um rugido mais grave, potente e com amplitude superior…um rugido de um Leão que enfrentou as hienas oferecendo-se a si mesmo em nosso lugar. Um Leão, este sim, o verdadeiro Rei, cujas roupas nos foram dadas para que pudéssemos ser aceitos em sua presença. A qual dos “rugidos” você tem dado mais ouvido ultimamente?

Bruno Souza