Mais do que Adubo de Flores

O matemático Joseph-Louis Lagrange lamentou a morte de Antoine Laurent Lavoisier dizendo: “Não bastará um século para produzir uma cabeça igual à que se fez cair num segundo”. Você provavelmente já ouviu falar de Lavoisier, o pai da Química Moderna, consagrado pela frase: “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Lagrange viu como a vida pode ser ceifada rapidamente por um único golpe de guilhotina! Lavoisier morreu e, conforme seus postulados, todos os elementos químicos constituintes de suas células e tecidos voltaram para os ciclos biológicos. Por uma perspectiva meramente naturalista (aquela demonstrada empiricamente) morrer é retornar a estes ciclos e – quem sabe – participar organicamente de outro ser, seja como nutriente para o desenvolvimento de uma linda flor, por exemplo. Mas esse seria o único consolo para a morte que a Química pode oferecer? Virar adubo de flor? Parece que sim!

A saída oferecida é a morte poética na qual nossa poeira de carbono retornará aos ciclos biológicos e, quem sabe um dia, sirva de adubo para o florescimento de uma nova, bela e vigorosa flor. Uma vida desprezível, insignificante ou pouco vistosa pode finalmente servir para um propósito menos triste e mais nobre, afinal de contas, se a vida concerne apenas no intervalo entre o nascer e o morrer, a única esperança que existe para as “anomalias” desse mundo é voltar ao pó e, quem sabe, integrar uma forma de vida mais significativa e exuberante.

Entretanto, jamais haverá esperança para quem olha o mundo físico e tenta calar os ecos da eternidade que ressoam profundos no coração (Ec 3:11). É duro recalcitrar contra os aguilhões (At 26:14) e pensar em sufocar os impulsos que conduzem a humanidade para além do tempo, em direção ao eterno. Está em nossa natureza não nos contentarmos com os limites temporais e, dessa forma, dirigimos nosso raciocínio para os domínios da eternidade “sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec 3:11). Isso significa que sempre estaremos lidando com este impulso por eternidade ao mesmo tempo em que sofremos sob a inquietude de termos sido criados do pó da terra, recebido o fôlego eterno (Gn 2:7) e caído em desonra pelo nosso pecado. A questão é que afastado de Deus, distanciado das mãos capazes deste oleiro, o barro tende a se conformar com seu retorno apenas para os ciclos “naturais”, para os aspectos fúteis da vida, e esta está sujeita aos efeitos da poeira.

Langrane percebeu na morte de Lavoisier o quão instantâneo pode ser o rompimento do fio da vida. Mas, foi o salmista que, observando a morte, disse com segurança: “Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para si” (Sl 49:15). Portanto, se estivermos seguros em Cristo, o nosso pó será mais do que adubo de flores, pois Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte dos seus santos” (Sl 116:15). ALELUIA!!!

Bruno Souza

Post Tenebras Lux

Sim, triste, é muito triste!
Ver o homem tão atribulado,
Caminhando sem olhar para o lado,
Como se Deus não existisse.

Julgando-se livre, segue escravo
Governado por seus sentimentos
Confundido em seus pensamentos
Vive sob a lei do pecado.

A felicidade sempre lhe escapa,
Um vazio lhe consome à prazo.
Faz de tudo para riscar do mapa
O que insiste em chamar de acaso.

Chora aturdido e desesperado
Vivendo distante do Bom Pastor,
Mas o que diz tal cabrito desgarrado
Perdido no pasto seco da dor?

“Não se faz necessária a cura,
Remédio é coisa de gente doente,
Eu mesmo selarei a rotura,
Pois sou médico e não paciente!”

Mas e se não precisa de cura,
Muito menos de um Salvador,
Por que continua à procura
De algo libertador?

Sim, é triste, muito triste
Ver pessoas dando golpes ao vento,
Olhar raivoso e punhos em riste,
Culpando a Deus por seus sofrimentos.

Seus lamentos são cheios de orgulho,
E mesmo em prantos recusam o lenço,
Arrebentados não se ouve o barulho
De nenhum contentamento.

Oh, mundo de tez serena e maciça,
De cuja beleza pelas mãos evapora,
Tuas trilhas são de areia movediça
Para quem o mapa ignora!

Sorris com dentes afiados,
Fumaça, vento e vapor destilas,
Enquanto buscam em ti aliados,
O Senhor de tudo, tudo aniquila.

Chegará o Rei, alma venturosa,
Com seu amor a tristeza dissipando,
O cabrito encontrará grama viçosa,
E o aflito não permanecerá chorando.

O abafamento perderá seu sentido,
Desmedido não valerá um centavo,
A sua voz encontrará o perdido,
Dando liberdade a quem foi escravo.

Pelos cravos, os cravos nas mãos,
Precioso sangue carmesim derramado,
Os inimigos são refeitos em irmãos,
Quando o orgulho pela fé for quebrado.

Sim existe, existe e resplandece,
Uma esperança segura e serena,
Uma amor que nunca condena.
Uma paz que jamais desaparece

Aos perdidos, “vinde a mim!”, diz Jesus
Para aqueles que se veem doentes,
Salvação aos que vivem descontentes,
Aos em trevas: Post tenebras lux!

Bruno Souza

Pecado: anomia ou patologia?

“Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23). Esta declaração lhe incomoda? Aceitar a verdade bíblica de que todos são mesmo pecadores é algo incômodo, não é verdade? Caso incomode, há a necessidade de aliviar o peso de alguma forma. Contudo, estamos diante de uma crescente tendência que procura minimizar a consciência do pecado eliminando a vergonha e encorajando o ego para nos sentirmos “livres” da culpa. O problema é que o pecado é a transgressão da lei (1 Jo 3:4), é anomia, uma espécie de nódua cujos efeitos são sérios demais para ignorarmos.

Porém, para esquivar-se desta realidade, os dilemas humanos têm sido explicados em termos totalmente antibíblicos. Ou seja, aquilo que na Bíblia é definido como anomia (transgressão da lei), foi “rebatizado” por eufemismos que tiraram a essência e a seriedade do pecado. Então, se o pecado foi transformado em patologia, nada mais justo do que procurarmos um especialista para sermos “curados” através de remédio e terapia. Aliás, vale salientar que a relação de ajuda profissional tornou-se algo quase sagrado hoje em dia.

Cada vez mais os cristãos estão se submetendo à teorias cujos fundamentos negam a veracidade da Bíblia e rejeitam a sua autoridade no tocante a alma humana. Alguns pensam que a exposição dos dilemas da vida somente para um profissional especializado seja mais adequada do que confessar suas culpas a algum irmão piedoso (Rm 15:14). Outros alegam que se submeter apenas a terapias que visam o alívio por meio de remédios seja mais eficaz do que o aconselhamento bíblico que confronta o pecado na vida do aconselhado. À vista disso, esteja certo de que nenhum remédio ou terapia santificará o seu coração, pois “as respostas racionais que não estão fundamentadas em princípios espirituais, podem trazer algum alívio, mas com o tempo, os resultados podem ser decepcionantes e até prejudiciais” (Don Hillis).

Jeremias pergunta (Lm 3:39): “Por que, pois, se queixa o homem vivente?” O profeta repreendeu a loucura daqueles que imaginavam que Deus havia renunciado os seus cuidados ao mundo. Então, a fim de despertar a mente de todos, ele aponta o remédio: devem olhar para si mesmos e reconhecer seus pecados para que se dissipem todas as névoas que impediam enxergar a providência divina. Ele responde: “Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.” Logo, a causa desta loucura que faz os homens excluírem a providência de Deus dos assuntos da alma humana é a rejeição em olhar para si mesmo como um pecador e envergonhar-se disso.

Ninguém é bom o suficiente para negar que é um pecador miserável com necessidade de arrependimento. Portanto, pecado é transgressão (anomia) e não uma questão simplesmente patológica. E como devemos lidar com isso? Tiago nos encoraja a confessarmos nossos pecados e orarmos uns pelos outros para sermos curados, pois, “muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5:16). Crer nesta verdade, aplicando-a em sua vida, trará, assim, eficaz e genuína saúde para a alma (Pv 16:24)!

Bruno Souza

Calmo, Sereno e Tranquilo

A privação do sono pode ser um grave problema. Segundo especialistas do Hospital Albert Einstein, “trocar horas de sono para dar conta dos compromissos da vida contemporânea tem se tornado um hábito comum e levado 60% da população no Brasil a dormir menos do que deveria. O sono insuficiente não permite ao organismo reparar-se adequadamente, trazendo prejuízos à saúde daquele que dorme menos do que o necessário”.

Diversos fatores são associados ao distúrbio do sono, dentre eles: os externos (excesso de luminosidade, ambientes barulhentos, colchões inadequados) e os biológicos (bruxismo, apneia do sono, insônia). Segundo dados da Associação Brasileira de Sono, mais de 60% das pessoas relatam dormir menos de 7 horas por dia durante a semana e 25% dormem menos de 6 horas por dia. Além disso, aproximadamente 18% das mulheres e 26% dos homens economicamente ativos são trabalhadores que atuam em turnos e com privação crônica de sono.

Existe, entretanto, outro fator que é tão importante quanto os citados acima: a ansiedade. Provocada por qualquer situação de medo, ou desencadeada pelo senso da presença da morte, fez com que os salmistas, por exemplo, escrevessem para tranquilizar os insones: “Sim, é possível deitar e pegar no sono (Sl 3:5) mesmo sabendo que os inimigos estão por todos os lados zombando e prontos para atacar a qualquer momento (vs.2,6)”. Como isso é possível? Confiando nas ações providenciais de Deus que é descrito como uma estrutura sólida e robusta, uma fortaleza segura (Sl 46:1)!

A tranquilidade de um sono imperturbável é observada enquanto Jesus dormia em meio a uma terrível tempestade. O Senhor dormia e não havia qualquer ansiedade. Nunca lemos sobre Cristo dormindo, exceto esta vez. Devidamente registrado em três dos Evangelhos, o contraste entre o assombro de seus discípulos e a paz com que dormia nosso Senhor Jesus, nos permite compreender o que significa ser calmo sereno e tranquilo. Bem diferente da apatia irresponsável, dormir em tais condições demonstra a serenidade divina e confiança em seu Pai.

Certamente Jesus dormia, mas com o propósito de ser acordado. As nossas ansiedades devem nos conduzir para Jesus Cristo, o único que pode ajudar na hora da dificuldade. “Lançai sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (I Pe 5:7). Não nos esqueçamos de que temos um Sumo Sacerdote que conhece nossas fraquezas, temores e ansiedades (Hb 4:14-15). Suportando todas estas coisas Ele é legítimo para acalmar o nosso coração, tal qual aquietou aquela tempestade com uma única palavra.

Então, aqueles que conseguem descansar suas cabeças sobre o travesseiro com a consciência limpa, podem de fato dormir serena e suavemente durante uma tempestade (SI 4.8). Podem sem dúvida enfrentar a morte como um dormir para esse mundo e um acordar para a vida eterna. São capazes de até mesmo cantar durante uma calamidade:

“Calmo, sereno e tranquilo
Sinto descanso neste viver
Isto devo a um amigo
Que só por Ele eu pude obter”.

O Senhor Jesus está em constante intercessão por sua igreja. O tempo oportuno para ajudar sua angustiada igreja chegará (SI 102.13). Por esta razão devemos confiar Nele sem reservas, pois Ele é quem conduz nossas almas pelos mares bravios da vida e somente pode dar descanso e alívio a todo nosso ser!

Bruno Souza

Quem não tem visão…

Lembro-me de quando a minha irmã ganhou um par de patins, cada qual com quatro rodas vermelhas presas numa bota branca de cano alto. Imagine a minha inveja! Imediatamente desejei aquilo que parecia ser tão fácil para ela: simplesmente patinar. Não demorou muito e ela então me proibiu: “nem pense em pegar os meus patins!”. Claro que desobedeci, pois considerei injusta tal determinação. E assim, sem querer olhar para os limites determinados, calcei os patins. O resultado foi dar de cara no muro da garagem.

Poderia não ter acontecido nada. Aliás, na maioria das vezes temos a sensação de que a impunidade é uma regra e, diga-se de passagem, muita gente se aproveita disso como pretexto para avançar sobre os limites e “se dar bem”. Daí uma queixa comum é dizer que a lei pune apenas pessoas de bem enquanto os maus seguem arrogantemente prosperando em tudo e sem nenhuma preocupação. Não obstante, a teimosia obscurece a compreensão de que existem limites impostos para nossa preservação e que ultrapassá-los compromete a segurança e traz prejuízos.

É interessante como o salmista Asafe no Salmo 73 descreve tal postura definindo-a como ignorância (v.22). Sua falta de visão aparece quando ele observa a vida de popularidade dos arrogantes (v.10) em seu aparente estado de saúde e prosperidade (v.4-5) e julga ser inútil conservar-se puro. Dessa forma, Asafe representa a ignorância como um caminho escorregadio e resvaladiço que sempre submete à queda quem por ele aventura-se a andar (v.18). O salmista afirma que a queda ocorre no momento em que a pessoa negligencia os limites propostos por Deus e coloca “os pés para fora” (v.2) do eixo normal de equilíbrio na ilusão de que poderá sustentar-se sobre este substrato movediço.

Os pés do salmista “quase” resvalaram (v.2). Saiba que o coração está inclinado para o pecado. Por isso, questionaremos perigosamente a bondade e o poder soberano de Deus assim como Asafe fez. Sempre que olharmos para a vida e acharmos que Deus é injusto, chegaremos a conclusões temerárias como esta: é inútil manter-se puro e fiel a Deus (v.13-14).

Todavia Asafe percebeu algo fundamental: o Bem Divino não é a prosperidade. Os ímpios podem de fato ser bem-sucedidos mesmo vivendo na impiedade, mas estão cegos para ver o Bem Divino: a Presença de Deus e estar junto dele (v.23-28). Algumas pessoas continuarão andando de patins. Seguirão sorrindo no caminho escorregadio, tentando equilibra-se de alguma forma, mas sem se dar conta de que existe um muro de concreto logo à frente. Que este não seja você, pois quem não aceita orientações, quem não gosta de ouvir, quem rejeita a instrução, não pode aprender nem ser corrigido, será como nas palavras do poeta: “quem não tem visão bate a cara contra o muro!”.

Piquenique na Jaula do Leão

Talvez a gente não seja tão louco a ponto de entrar na jaula de um leão. Aliás, nossa esperança é que ninguém seja tolo o suficiente para fazer isso. Mas, imagine por um momento: algumas pessoas ignoraram os avisos de perigo e, mesmo ouvindo os gritos frenéticos dos espectadores do lado seguro da jaula, resolveram fazer assim mesmo um piquenique lá dentro. Elas permanecem passivas na sua insensatez comendo e relaxando como se o leão nem estivesse ali, pois ignoraram a sua presença. Sim, alegremente desconsideraram o leonino! Todavia, isso não quer dizer necessariamente que o animal esteja fazendo o mesmo.

Você não acha isso uma verdadeira loucura? Certamente nunca imaginaríamos que uma pessoa em sã consciência simplesmente desprezaria todos os alertas de perigo e colocaria em risco a própria vida na ilusão de que o leão à espreita na verdade não existe. Dessa mesma forma muitas pessoas caminham pela vida como se Deus nem existisse, ignorando todos os sinais claros da sua própria divindade manifestos na criação (Rm 1:19-20) e na sua Palavra (Hb 11:3). Vivem calmamente suas rotinas sem nutrir qualquer forma de pensamento sobre Deus ou sem preocupação com aquilo que Ele é capaz de fazer. A Bíblia chama isso de insensatez (Sl 14:1).

A propósito, você já reparou que ninguém gosta de ser ignorado? Isso não quer dizer que a pessoa ignorada simplesmente sumiu ou deixou de existir. Pois bem! A Bíblia é pontual ao chamar de insensato quem tenta fingir que Deus não existe. O termo refere-se a qualquer pessoa que despreza o Senhor e sua disciplina. Sua insensatez é manifesta em um estilo de vida caracterizado pelo egoísmo, teimosia e ainda um terrível e ilusório senso de autossuficiência que envolve tudo o que ela pensa, sente, deseja e faz. Enfim, o insensato procurará viver em autonomia, mesmo que isso seja um caminho perigoso e mortal (Pv 14:12).

Não se engane! Um incontável número de gente tem excluído qualquer ideia de que Deus está observando cada um dos seus movimentos, ouvindo as suas palavras e inspecionando as motivações mais profundas dos seus corações (Pv 21:2; Sl 7:9). Ignoram o fato de que ele é um justo Juiz (Sl 7:11) “que há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas (Ec 12:14). Nem mesmo os religiosos da moralidade, com suas palavras bem articuladas, escapam de algum tipo de rejeição, renúncia ou oposição à existência divina e à sua Palavra (Is 29:13).

Conforme Francis Schaeffer disse, “Deus existe e não está em silêncio”. Loucura é, então, ignorar o fato de que “por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo” (Sl 19:4); e insensatez é desprezar a voz de Cristo nas Sagradas Escrituras. Nos dias de Noé a vida seguia seu curso e as pessoas comiam, bebiam, casavam e não perceberam o iminente perigo, “senão quando veio o dilúvio” (Mt 24:38-39). Sejamos vigilantes, pois horrível coisa é cair nas mãos do Senhor (Hb 10:31).

Bruno Souza

Desejando o Paraíso

Um oásis é uma área isolada de vegetação em um deserto, vizinha a uma nascente de água doce. O nome oásis significa “morada” – sugestivo, não? Mas, e quando se está caminhando no deserto por dias e nada de oásis? Sabe aquele “dia de cão”? Não, não me refiro ao dia de levar o bichinho de estimação ao “Pet Shop” , mas àquele dia que você acorda de madrugada, pois a energia faltou e o ventilador desligou. Calor, pernilongos e o uivar insistente de quase todos os cachorros da vizinhança. Parecia ser “apenas” isso, até que seu filho acorda chorando e chega ao lado de sua cama vomitando todo o quarto.

Mesmo no deserto, desejamos certos mimos, como aquele banho amornado. Pois bem: está na hora de sair, mas a energia não voltou! Abrir com raiva o armário do banheiro só faz com que sua escova dental seja projetada para dentro do vaso sanitário, o mesmo vaso cuja tampa você nunca abaixa. Desastres sucessivos marcam o “dia de cão”. Desde ter esquecido o guarda-chuva na igreja, logo no dia em que o “dilúvio de Noé” parece se repetir. Pra completar, sua unha quebra logo após ter saído da manicure.

Eh, amigos, muita gente já viveu dias assim! Contudo, tenha bom ânimo, pois eles continuarão a existir. Na verdade, dias desérticos como esses são oportunos, pois nos lembram da nossa Verdadeira Morada. Algo dentro de nós arde e nos eleva na contemplação bendita de um paraíso que é todo harmonia e cheio de paz: um oásis no deserto! Trata-se da saudade que a gente sente de tudo que ainda não vimos. São os sinos do Éden soando em nosso coração!

Assim, o desejo de morar numa terra regada e fértil é uma realidade. O sonho da vida eterna é antigo e advém do fato de que Deus “pôs a eternidade no coração do homem” (Ec 3.11). Este anseio é profundo, central, e mais subconsciente do que consciente, pois, até mesmo os descrentes possuem sua versão – ainda que distorcida – de paraíso. Essa nostalgia é religiosa, pois fomos criados à imagem de Deus e para Ele. Tal se equipara a uma “memória de berçário” que nos conduz de volta àquela morada.

Após uma noite de choro existirá um dia de alegria (Sl 30.5) – encoraja o salmista. Pela graça de Deus ele propicia oásis de tranquilidade nessa vida. O problema é que, mesmo inconscientemente, confundimos o oásis com o mar de Deus e desejamos construir uma tenda para permanecer ali. Moradas no meio do deserto e vida peregrina: essa é a nossa história! Mesmo incompleto, com doença, choro, uivos e mosquitos, Deus se faz presente no oásis, mantendo a lembrança do paraíso que nos ajuda a suportar as angústias desérticas (Sl 84:5). Se você é uma ovelha no rebanho do Senhor, haverá à frente um paraíso permanente – a sua morada. Ali, sim, haverá descanso de nossas fadigas e habitaremos num lugar que Jesus mesmo construiu (Jo 14.2). Por isso não devemos desfalecer diante da hostilidade do deserto, mas sim crer que ele é temporário (2 Co 4:16-18)!

Bruno Souza

O sotaque do Reino de Deus

Um rapaz entra em uma agência dos Correios e espera a sua vez. No guichê, disse: “Quero enviar esta carta”. Do outro lado do balcão uma mulher de cabelo amarelo sorri e dispara: “Boa tarde, baiano! Ôcê é baiano, né mesmo?” Enquanto tentava desvendar o mistério da adivinhação, ouviu: “Seu sotaque não nega. Ôces falam cantando”.

Anos depois o rapaz volta para a Bahia, para o lugar onde seu sotaque seria comum. Contudo, seus amigos passaram a estranhar certas diferenças na sua conduta. Agora ele lia a Bíblia diariamente e também orava. Aos poucos foi deixando de compartilhar palavrões, e a pornografia não o tinha na coleira como um cão. Isso assustou os amigos. Logo ganhou o apelido de “crente” – em parte porque seu sotaque diferenciado o fez perceber o que é estar inserido numa cultura permissiva, opressora, sedutora, egoísta e que banalizava a fé em Deus.

O sotaque em um país como o Brasil é piada pronta para muitos. Junte-se a isso alguma característica destacada – algum defeito na aparência ou um comportamento diferente do padrão socialmente aceito. Foi assim que em Antioquia os discípulos de Jesus foram chamados pela primeira vez de “cristãos” (At 11:26). O populacho da cidade viu a oportunidade para apelidar um novo tipo de gente que surgiu e que eles não conseguiam entender. Essa gente não se encaixava em nenhuma das categorias e, assim, foi necessário inventar um novo nome. Sem saber, esse apelido foi transformado na designação pela qual, em todo o mundo, os seguidores de Jesus Cristo são identificados – cristãos.

O povo de Antioquia viu algo estranho naquela gente. Uma mudança expressiva e perceptível. Não eram mais judeus nazarenos, galileus ou gentios convertidos ao judaísmo, havia algo surpreendentemente diferente e incomum nesse grupo. O apelido reconhecia e declarava a devoção dos discípulos a Cristo, seu líder, como marca de uma autêntica identidade. O evangelho proporcionou a verdade transformadora e deu a eles um novo sotaque que não se refletia mais na linguagem. Os convertidos formavam uma família da fé que espelhava, pela conduta, a proximidade com seu Mestre Jesus, o Cristo.

No evangelho de Mateus (26.73) algumas pessoas “disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia”. Pedro era gente da terra, judeu como eles. O problema não era o sotaque percebido pela linguagem. O modo de falar que denuncia inclui saber do que se abster, a quem louvar e agradecer e como suportar a opressão.

Não é fácil ser cristão. Você se acha tímido e fraco para viver nesse mundo hostil ao cristianismo? Acha que ninguém entende seu sotaque? Se a sua fé for pública e comprometida, certamente o seu comportamento revelará o sotaque da cidade celestial. O mundo estranhará quem reflete esse andar com Deus nos seus relacionamentos e atitudes. Permaneça firme e “fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus” (2 Tm 2.1).

Bruno Souza

Brumadinho

Uma terrível catástrofe ocorreu. Foram cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos varrendo a comunidade local e o centro administrativo da empresa mineradora, além de muitos animais e o comprometimento de rios e do solo em Brumadinho. A lama rejeitada, após ter oferecido a sua riqueza, ceifou as vidas de pais, irmãos, tios e tias, primos e primas, separou casais e soterrou amizades.

Instintivamente, quando sofremos, a pergunta é: a culpa é de quem? A resposta a essa pergunta natural geralmente revela como respondemos à dor. Religiosos e moralistas continuarão procurando um culpado, enquanto se dividem quanto às razões para a tragédia. Alegarão uma vida impura, punição pelo lucro, desejo de ficar rico. Os céticos, por sua vez, culparão a vida, o universo, ou até mesmo Deus. O fato é que reagimos procurando culpados e essa tarefa nos obscurece o entendimento acerca do propósito das catástrofes. Em momentos assim fica-se cego para reconhecer onde estão as reais ameaças. As cenas de destruição nos levam para outra direção – por que as pessoas viviam naqueles lugares arriscados? Por que os alarmes não soaram? Por que as defesas contra vazamentos foram inadequadas? Queremos culpar alguém ou alguma coisa.

Inútil é culpar a criação. A lama não se sentou com engenheiros garantindo a segurança da barragem; a lama não podia decidir que não caberia naquele lugar, e que seria melhor ter menos lucro e mais segurança; ela desconhecia a existência de novas tecnologias capazes de tornar os modelos econômicos mais sustentáveis. A culpa não é da lama. Ela não planejou e nem construiu instalações de escritório em local de risco.

Inútil é culpar o Criador. É verdade que tragédias nos fazem mergulhar numa espiral de ressentimento e um forte senso de injustiça acompanha; mas isso é injustificável quando se passa a atribuir culpa a Deus. Apesar de ter decretado o evento, não foi Deus quem o realizou e, ainda que tendo o poder de interferir, não fazê-lo jamais o coloca no banco dos réus, pois, ele opera em todas as coisas para misteriosos propósitos bons. Mesmo no caso de Brumadinho são verdadeiras as palavras de que os propósitos de Deus “cooperam juntamente para o bem daqueles que amam a Deus; daqueles que são chamados segundo o Seu propósito” (Rm 8.28).

Mergulhados na dor, é verdade, pensemos nas lições que essa tragédia e qualquer outra pode nos ensinar. Na Bíblia temos um caso assim, de uma tragédia, um desabamento que ceifou a vida de pessoas que buscavam a Deus. A resposta de Jesus foi surpreendente: “se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lc 13.4-5).

Jesus nos lembra que quando tudo parece bem, fiquemos alerta, porque há um risco muito sério. Se tudo estiver bem, arrependa-se! Por quê? Por causa da nossa rebelião contra o Deus vivo. Lição um: chorai pelos mortos. Lição dois: chorai por vós mesmos”. Toda calamidade mortal, portanto, é um chamado misericordioso de Deus para os vivos se arrependerem.

Bruno Souza

Amor Supremo

No antigo Oriente, extremamente pastoril e agrícola, ter muitos filhos era sinal de prosperidade. Estamos falando de uma época sem nenhuma rede de supermercados ou “fast food”, uma época sem padaria, sem shopping center, sem enlatados ou leite longa vida. Então, o labor diário da vida nômade em uma sociedade tribal em desenvolvimento exigia muita mão-de-obra e ter muitos filhos ajudaria bastante. Tê-los, porém, não era apenas uma questão de utilidade.

De acordo com a Bíblia, filhos são uma bênção que vêm do Senhor, “o fruto do ventre o seu galardão.” (Sl 127:3). O fato de não ter filho algum era uma vergonha (Gn 30:22,23) e opróbrio (Lc 1:25) para uma mulher nessa condição. Numa época onde a maternidade era interpretada como consequência natural da vida a dois, a situação difícil da mulher estéril era muito lamentada. Tendo em mente esse contexto, possuir apenas um único filho torna-se um símbolo de algo com valor inestimável. Por isso, seria inimaginável entregar o único filho, seu bem mais precioso, para morrer no lugar de pecadores. Honestamente, ninguém faria isso!

Se a morte de um filho é algo assombroso, e entrega-lo à morte uma ideia insuportável, Deus se dispôs a entregar o seu unigênito para morrer no lugar de pecadores, no lugar de seus inimigos. Preparados para valorizar os filhos e estimar em alta conta os primogênitos, o que Deus reservou para sua própria glória excedeu supremamente as noções de amor e graça “porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16a). Este ato supremo de amor onde o Senhor entregou o seu Filho amado (Mt 3:17), teve um objetivo determinado: tornar a adoção uma realização e realidade eficaz aos que creem (Jo 3:16b). Como primogênito na família de Deus, Jesus foi aquele que abriu o caminho do “ventre” da morte e da sepultura para todos os seus irmãos, quando nascem de novo para a família de Deus como filhos e filhas. Isso significa que a nossa adoção como filhos viabiliza-se por causa deste ato supremo de amor. Assim, sem a morte de Jesus, o Filho de Deus, jamais seríamos feitos filhos de Deus.

Foi entregue, portanto, algo valiosíssimo para nós. Tratava-se do Unigênito, o único e precioso Filho de Deus que nos torna filhos também. Nós não podemos medir tal amor, porque o preço pago foi alto demais e “nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele; Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4:9-10).

Bendito seja este amor, supremo amor.

Bruno Souza