Brumadinho

Uma terrível catástrofe ocorreu. Foram cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos varrendo a comunidade local e o centro administrativo da empresa mineradora, além de muitos animais e o comprometimento de rios e do solo em Brumadinho. A lama rejeitada, após ter oferecido a sua riqueza, ceifou as vidas de pais, irmãos, tios e tias, primos e primas, separou casais e soterrou amizades.

Instintivamente, quando sofremos, a pergunta é: a culpa é de quem? A resposta a essa pergunta natural geralmente revela como respondemos à dor. Religiosos e moralistas continuarão procurando um culpado, enquanto se dividem quanto às razões para a tragédia. Alegarão uma vida impura, punição pelo lucro, desejo de ficar rico. Os céticos, por sua vez, culparão a vida, o universo, ou até mesmo Deus. O fato é que reagimos procurando culpados e essa tarefa nos obscurece o entendimento acerca do propósito das catástrofes. Em momentos assim fica-se cego para reconhecer onde estão as reais ameaças. As cenas de destruição nos levam para outra direção – por que as pessoas viviam naqueles lugares arriscados? Por que os alarmes não soaram? Por que as defesas contra vazamentos foram inadequadas? Queremos culpar alguém ou alguma coisa.

Inútil é culpar a criação. A lama não se sentou com engenheiros garantindo a segurança da barragem; a lama não podia decidir que não caberia naquele lugar, e que seria melhor ter menos lucro e mais segurança; ela desconhecia a existência de novas tecnologias capazes de tornar os modelos econômicos mais sustentáveis. A culpa não é da lama. Ela não planejou e nem construiu instalações de escritório em local de risco.

Inútil é culpar o Criador. É verdade que tragédias nos fazem mergulhar numa espiral de ressentimento e um forte senso de injustiça acompanha; mas isso é injustificável quando se passa a atribuir culpa a Deus. Apesar de ter decretado o evento, não foi Deus quem o realizou e, ainda que tendo o poder de interferir, não fazê-lo jamais o coloca no banco dos réus, pois, ele opera em todas as coisas para misteriosos propósitos bons. Mesmo no caso de Brumadinho são verdadeiras as palavras de que os propósitos de Deus “cooperam juntamente para o bem daqueles que amam a Deus; daqueles que são chamados segundo o Seu propósito” (Rm 8.28).

Mergulhados na dor, é verdade, pensemos nas lições que essa tragédia e qualquer outra pode nos ensinar. Na Bíblia temos um caso assim, de uma tragédia, um desabamento que ceifou a vida de pessoas que buscavam a Deus. A resposta de Jesus foi surpreendente: “se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lc 13.4-5).

Jesus nos lembra que quando tudo parece bem, fiquemos alerta, porque há um risco muito sério. Se tudo estiver bem, arrependa-se! Por quê? Por causa da nossa rebelião contra o Deus vivo. Lição um: chorai pelos mortos. Lição dois: chorai por vós mesmos”. Toda calamidade mortal, portanto, é um chamado misericordioso de Deus para os vivos se arrependerem.

Bruno Souza

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