Crianças brincando com navalha

O conceito de liberdade em nossos dias fundamenta-se na ideia de que ela é uma mera habilidade de um indivíduo em fazer valer os seus caprichos. Se liberdade é isso, estamos falando de uma ideia um tanto quanto rasa, infantilizada e que mal consegue capturar as complexidades da existência humana, pois, ignora o fato de que Deus estabeleceu limites, impôs barreiras, levantou seus muros e, por certo, “Ele frustra as maquinações dos astutos, para que as suas mãos não possam realizar seus projetos” (Jó 5:12).

Um homem cujo apetite é a sua lei, nos chama a atenção não como alguém liberto, porém escravizado. Conforme disse o apóstolo Paulo aos romanos: “Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a quem obedeceis sois servos, seja do pecado para a morte ou da obediência para a justiça?” (Rm 6:16).

Deste modo, o homem escravizado a seus caprichos, tem a pretensão ilusória de que o mundo se curve diante dele. Para isso, lança mão a qualquer método manipulatório, falsificando a realidade ao seu redor, para que tudo gravite em torno da satisfação de suas vontades. É como uma criança birrenta que deseja brincar com uma afiada navalha e chora com raiva do Pai porque lhe impôs limites. Reagindo aos limites um filho rebelde será capaz de até mesmo dizer que o seu pai está morto.

Neste afã, o homem negará a existência de Deus convencido de que, se houver um Deus, tanto pior para ele, pois Deus tornar-se-ia uma barreira que o impediria de desfrutar dos prazeres. Para Theodore Dalrymple, “primeira exigência da civilização é que os homens estejam dispostos a reprimir seus instintos e apetites mais baixos: falhar nisso faz deles, precisamente porque são inteligentes, muito piores que meras bestas”.

Pode parecer absurdo, como de fato é, considerarmos que Deus não existe. Um cristão de verdade não chegará a tal encruzilhada (Sl 14:1). Todavia, ainda que não neguemos o Senhor, algumas vezes nos iludimos com o fato de que Ele pode nos obedecer – de que Deus pode se curvar diante de nós e satisfazer todos os nossos caprichos perigosos, assim como um pai sem autoridade sobre um filho podre de mimado. Ledo engano!

Quando crianças querem brincar com navalhas, o Pai estabelece limites protetivos e os filhos devem aprender a lidar com as frustrações. Portanto, negar que o Pai não existe é arriscar-se ao perigo da lâmina afiada dos próprios caprichos. Crianças brincando com navalhas: assim comporta-se o homem escravizado aos próprios apetites!

Bruno Souza

As Crianças e o Culto Público

As crianças de nossa Igreja são devidamente identificadas por nós como filhos da aliança. Com isso estamos afirmando que elas são membros da Igreja e, assim como a Palavra de Deus é dada a todos os membros da comunidade do pacto, incluídas estão, por certo, as crianças pequenas.

Alguns textos demonstram a participação dos pequeninos em cultos públicos como, por exemplo, em 2 Crônicas 20:13: “Todo o Judá estava em pé diante do Senhor, como também as suas crianças, as suas mulheres, e os seus filhos”; e em Josué 8:35: “Palavra nenhuma houve, de tudo o que Moisés ordenara, que Josué não lesse para toda a congregação de Israel, e para as mulheres, e os meninos, e os estrangeiros, que andavam no meio deles”.

O próprio Senhor Jesus nos ensina que crianças deveriam ser trazidas à sua presença. No Evangelho de Marcos 10:13-14 lemos: “Então lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse, mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus”.

Convencidos de que nossos filhos cultuam conosco de modo congregacional, pois fazem parte do corpo unido (At 2:39), é essencial que os pais estejam conscientes de que não basta simplesmente levarem seus filhos aos cultos, mas também que eles devem ser treinados por vocês para que cultuem ao Senhor adequadamente. Assim como ensinamos nossos filhos a andar e a falar, de igual modo, é nosso dever ensiná-las diligentemente as Escrituras e como elas devem adorar a Deus ao “sentarem em sua casa”, ao “andarem pelo caminho”, ao “deitar”, ao “levantar” (Dt 6:6-7). Portanto, é da responsabilidade dos pais o ensino, a disciplina e controle de seus filhos no culto.

Tome cuidado para que seu filho não esteja crescendo com uma noção deturpada sobre o culto público. O objetivo é treinar as crianças a exercerem autocontrole e aprenderem como adorar o Senhor. Logo, é da responsabilidade dos pais estabelecer as regras de comportamento para suas crianças, bem como ajudá-las a entender a razão por que estão no culto. Por isso, nós precisamos ter a consciência clara do que estamos fazendo ali para, assim, ajudarmos nossas crianças a terem alegria de participar conosco. Não é porque são crianças que devemos deixá-las sem nenhum tipo de limite no ambiente do culto solene.

Enfim, tão belo quanto os sons das crianças participando conosco das leituras e canções, é ouvir a voz sussurrante, firme e discipuladora dos pais ensinando reverência aos nossos pequeninos durante o culto. Assim, uma criança sendo discretamente corrigida por seu pai ou mãe, não deveria causar estranheza a nós. Estranho é negarmos aos nossos filhos a disciplina necessária a qualquer adorador.

Bruno Souza

Choro de Criança: Problema de Adulto

Uma criança acorda e descobre: a mamãe não está em casa como de costume. Pronto! Os momentos seguintes são de choro intenso misturados com o clamor invocativo – “mãe, oh mãe!” – seguido por contorcionismos corporais típicos de quem lamenta muito e faz questão de demonstrar sua dor.

É insuportável para ela perceber que, pelo menos naquele dia, as coisas saíram de sua rotina habitual e, pior, o choro insistente não fará com que a vitamina de banana tenha a mesma consistência e sabor, ainda que o papai use os mesmos ingredientes. E o que é pior: descobrirá na prática que paciência tem limite.

Será que o choro inconformado e os gritos de “volta logo!” resolverão o fato de que coisas desagradáveis acontecem?
Pode ser que não! Entretanto, não podemos ignorar o efeito pedagógico, não somente das ausências, como de igual modo, das agulhas de injeção, dos tônicos alimentares à base de óleo de fígado de bacalhau, febres repentinas, dores de ouvido e garganta, sarampo, “papeira”, enfim, toda sorte de mazelas típicas da juventude, nos moldando e treinando na arte de expressar a dor através de nossos clamores.

Crescemos, entretanto, as perturbações continuam potencialmente nos fazendo chorar clamando por alívio (Sl 22:19; 38;22). Como sabemos, o choro não está restrito ao mundo das crianças (Jo 11:35). Muitas são as tristezas que seguidamente transtornam o nosso semblante e enfraquecem o ânimo, pois “com a tristeza do coração o espírito se abate (Pr 15:13)”. O problema é que a gente insiste em expressar-se com a mesma sofisticação infantil de outrora.

Enquanto criança, a nossa salmodia já refletia os contornos esquisitos de um mundo quebrado, no qual ausências e doenças eram percebidas como algo não natural. Assim, através disso, descobrimos certas incapacidades, passamos a conhecer certos limites e aprendemos sobre o choro. Então, por que não aproveitar a lição e entender que o nosso choro deve ser dirigido à alguém maior do que nós (Sl 3:4; 4:3; 61:2)? Que o choro tem um alcance sonoro agudo (Sl 5:3; 65:2-3) e pode ser usado com sinceridade (Sl 42:6; 44:25) e não simplesmente como artifício para manipulação (Is 1:13-15; 64:6-7)?

A criança chora e com o tempo (creia, ele chega!) descobre que a mamãe não está ao alcance de seus gritos, a vitamina não foi modificada em sua estrutura físico-química pelas ondas sonoras agudas, e que o papai não se comoveu durante o “espetáculo”. O problema é chegar na fase adulta sem se dar conta disso.

Mas, calma! Você não precisa estudar sobre as ondas sonoras e os seus efeitos sobre a matéria! Leia os Salmos. Lá descobriremos como chorar feito gente crescida, que sabe o suficiente sobre o refrigério para nossas tristezas, a certeza em meio as dúvidas, o consolo para as lágrimas e a esperança de que Jesus voltará. Paciência, ele chegará!

Bruno Souza

Lidando com a aparente impunidade no mundo

Irmão, existem assuntos que, de tão delicados, o nosso desejo é ignorá-los evitando, assim, o incômodo de termos que tratar deles. Entretanto, as Escrituras não nos escondem que coisas estranhas acontecem neste mundo complicado e cheio de perplexidades em que vivemos (Ec 7:15). Assim, das muitas coisas incômodas nesta vida destaco uma difícil de lidar: saber que Deus é o Justo Juiz (Sl 7:11) – que pode acabar definitivamente com a impunidade – mas parece não fazê-lo sempre que julgamos necessário.

Basta observar a realidade para que enxerguemos um mar de assassinatos, traições, corrupção, abuso de poder, deslealdade, falta de afeição, egoísmo, truculência, enfim, o pecado parece dominar as esferas do poder e aparentemente é como se Deus estivesse indiferente a tudo isso. Ora! Nem sempre saberemos explicar direito ou mesmo entender completamente as aparentes distorções na aplicação da justiça e, por causa disso, a sensação de estar à deriva, apenas ao sabor de uma correnteza por demais impetuosa, é um resultado natural.

Contudo, quão tolos seremos se, em nossa confissão, reconhecermos como uma “realidade teológica” que o Senhor é Deus, e que ele é soberano, sem gostar muito disso e, por fim, acabarmos não aprovando o que Ele faz ou aparentemente deixa de fazer como Deus. Equivocadamente muitos cristãos se ofendem e caminham ressentidos com a liberdade divina no exercício do seu governo; principalmente quando nos detemos a observar e avaliar as atrocidades, aqui e acolá, sem que a devida punição tenha ocorrido.

No mundo onde campeia a ilegalidade, homens perversos e impostores seguem praticando a maldade certos de que sairão impunes (Ec 8:11), pois, é verdade, “a impunidade gera a audácia dos maus” (Carlos Lacerda). E onde Deus estaria, pois os corruptos sentam na cadeira do juiz para condenar homens de bem? E o que isso pode provocar em nós? O resultado de um coração cheio de indignação é voltar-se para Aquele que tudo vê e julga retamente na esperança da necessária retribuição imediata. Porém, novamente, erramos ao supor que o nosso Senhor não continue a exercer seu domínio e poder, ainda hoje, quando as coisas não ocorrem exatamente no momento e da forma que nós queremos. Isso revela muito do modo como nos relacionamos com o nosso Deus.

Um dos problemas que precisamos lidar é com nossos pensamentos de indignação contra o Senhor, porque, muito embora pareça que, na sua providência, o mau-caratismo humano não esteja sendo punido, diferentemente de nós que apenas julgamos o livro pela capa e usamos as aparências exteriores como critério, lembre-se: quem governa todos os propósitos e julga todos os intentos dos homens é o Senhor. Então, “se o homem não se converter, afiará Deus a sua espada; já armou o arco, tem-no pronto; para ele preparou já instrumentos de morte, preparou suas setas inflamadas” (Sl 7:12-13).

Bruno Souza

Dia dos Namorados

Talvez você seja daqueles que enxerga o Dia dos Namorados como apenas mais um apelo comercial feito a uma sociedade ávida por consumo. Se este for seu argumento para deixar passa-la em branco, cuidado: “a vida snake” (cobra)!

Muitos casamentos, com o passar do tempo e a chegada dos filhos, podem acabar entrando em um marasmo de comodismo. Nesse contexto, datas assim são bem-vindas para exercitarmos um pouco do nosso romantismo.

Com o passar do tempo, sem que haja a devida atenção, os casais acabam sacrificando seus momentos de intimidade pela intensa rotina diária e, pouco a pouco, as conversas – se é que ainda existem – passam a girar apenas em torno de temas como trabalho, contas a pagar, compras no supermercado, limpeza da casa, débito do cartão de crédito, a escola das crianças…

Consequentemente, cada vez menos tempo é investido em atividades para o casal e, nessa toada, a vida conjugal começa a manifestar os seus primeiros sinais de falência.

Maridos, em especial, considerem o seguinte: a bondade de Deus manifesta-se a nós quando Ele age benévola e generosamente em prol do nosso bem-estar. Embora tal ação não se restrinja somente aos crentes (Mt 5:45), somente eles a desfrutam de maneira adequada, de forma mais rica e mais completa. Se, conforme cremos, “o que acha uma esposa acha o bem e alcançou a benevolência do SENHOR” (Pv 18:22), então, por que trata-la como uma mera reprodutora e dona de casa? Nossas esposas devem ser consideradas biblicamente como são: um bem que procede de Deus para nós, um achado valioso, um produto da benevolência do Senhor.

Esposas, o romantismo não deve ser a principal característica a ser buscada em seu cônjuge. Talvez ele não seja muito bom em lidar com flores, chocolates e afins; contudo, biblicamente, é alguém que se esforça para liderar a família, que se sacrifica por ela, procura ser gentil sempre que possível (Mt 11:29) e está envolvido na provisão do lar (Rf 5:29; 1 Tm 5:8). Não despreze tais virtudes se elas existem em seu marido, e mostre para ele o quão segura está sob a sua liderança. Afinal, o desejo de Deus para ele é que “seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade. Como cerva amorosa, e gazela graciosa, os seus seios te saciem todo o tempo; e pelo seu amor sejas atraído perpetuamente” (Pv 5:18-19).

Que no Dia dos Namorados, pelo menos, vocês tenham conseguido vencer qualquer desculpa para negligenciar um pouco de romance, o cansaço devido à agitação de um dia de trabalho, as dificuldades com os filhos pequenos, a tristeza ou o mau humor, o fato de não sentir-se atraente como outrora… enfim, que tenham derrotado os impulsos para negar um ao outro o que lhes é devido (1 Co 7:3-4) e que, por um tempo, pode estar escasso na vida do casal.

Bruno Souza

A cosmovisão cristã é redentora… e até um ateu sabe disso!

Talvez você não conheça Matthew Parris. Trata-se de um escritor e radialista sul-africano-britânico, autor de livros sobre política e viagens, que cito aqui por conta de uma de suas publicações na revista The Times, de Londres, no final de 2008: “Na África, o Cristianismo muda o coração das pessoas. Isso traz transformação espiritual. O renascimento é real. A mudança é boa”.

Não estamos falando do testemunho de um cristão que retornou à África, já que este jornalista é um autodeclarado ateu convicto! Isso mesmo: Matthew Parris é ateu! Trata-se de um homem que, apesar de sua falta de fé e rebelião contra Deus, percebe o forte impacto da cosmovisão cristã em cultura em que missionários atuaram.

Para ele, visitar localidades evangelizadas por missionários cristãos permitiu a constatação de uma mudança real e para melhor na vida dos africanos.

Em seu artigo, intitulado “Africa needs God” (A África precisa de Deus), Parris destaca que os evangelizados eram sempre diferentes: “ao invés de assustar ou confinar seus conversos, sua fé parecia tê-los libertado e aliviado. Havia alegria, curiosidade, um comprometimento com o mundo – uma integridade em seu cuidado com os outros – que parecia estar faltando na tradicional vida africana”.

Não poderia ser diferente! Quando o evangelho alcança o coração humano e o transforma, os seus efeitos são claramente observáveis por qualquer pessoa. Um dos efeitos notáveis é, exatamente, o “andar em novidade de vida” (Rm 6:4; 7:6), ou seja, comportar-se como pessoas cujos grilhões do pecado foram quebrados.

“Sempre que entrávamos em um território de trabalho missionário”, testemunhou Parris, “tínhamos que reconhecer que algo havia mudado nos rostos das pessoas com quem tínhamos contato: algo em seus olhos, a forma como se aproximavam de nós, cara a cara, sem olhar para baixo ou para longe”.

Esse homem reconhece que todo um continente precisa de Deus, ao passo que, ele mesmo, segue vivendo como se Deus não existisse. Ele está certo ao reconhecer o potencial do evangelho quando este chega aos corações e provoca radicais transformações, e quando liberta pessoas espiritualmente cativas do medo de “espíritos maus, de ancestrais, da natureza e dos animais, da hierarquia tribal, de coisas cotidianas”. Sim! O testemunho de Parris nos alegra pelo óbvio – temos reconhecido há muito tempo que a cosmovisão cristã é redentora.

Oremos por este jornalista. Ele está à beira de uma rio de águas cristalinas, capaz de trazer vida e transformar toda uma cultura à sua volta. Ele sentiu o cheiro do pão que é verdadeiro alimento, e observou os sinais da sua multiplicação, sem, contudo, estender as próprias mãos para comer. Narra os fatos, mas se nega a experimentar do mesmo Deus que reconhece como bom para todo um continente. A cosmovisão cristã é redentora… e até um ateu sabe disso!

Bruno Souza