Choro de Criança: Problema de Adulto

Uma criança acorda e descobre: a mamãe não está em casa como de costume. Pronto! Os momentos seguintes são de choro intenso misturados com o clamor invocativo – “mãe, oh mãe!” – seguido por contorcionismos corporais típicos de quem lamenta muito e faz questão de demonstrar sua dor.

É insuportável para ela perceber que, pelo menos naquele dia, as coisas saíram de sua rotina habitual e, pior, o choro insistente não fará com que a vitamina de banana tenha a mesma consistência e sabor, ainda que o papai use os mesmos ingredientes. E o que é pior: descobrirá na prática que paciência tem limite.

Será que o choro inconformado e os gritos de “volta logo!” resolverão o fato de que coisas desagradáveis acontecem?
Pode ser que não! Entretanto, não podemos ignorar o efeito pedagógico, não somente das ausências, como de igual modo, das agulhas de injeção, dos tônicos alimentares à base de óleo de fígado de bacalhau, febres repentinas, dores de ouvido e garganta, sarampo, “papeira”, enfim, toda sorte de mazelas típicas da juventude, nos moldando e treinando na arte de expressar a dor através de nossos clamores.

Crescemos, entretanto, as perturbações continuam potencialmente nos fazendo chorar clamando por alívio (Sl 22:19; 38;22). Como sabemos, o choro não está restrito ao mundo das crianças (Jo 11:35). Muitas são as tristezas que seguidamente transtornam o nosso semblante e enfraquecem o ânimo, pois “com a tristeza do coração o espírito se abate (Pr 15:13)”. O problema é que a gente insiste em expressar-se com a mesma sofisticação infantil de outrora.

Enquanto criança, a nossa salmodia já refletia os contornos esquisitos de um mundo quebrado, no qual ausências e doenças eram percebidas como algo não natural. Assim, através disso, descobrimos certas incapacidades, passamos a conhecer certos limites e aprendemos sobre o choro. Então, por que não aproveitar a lição e entender que o nosso choro deve ser dirigido à alguém maior do que nós (Sl 3:4; 4:3; 61:2)? Que o choro tem um alcance sonoro agudo (Sl 5:3; 65:2-3) e pode ser usado com sinceridade (Sl 42:6; 44:25) e não simplesmente como artifício para manipulação (Is 1:13-15; 64:6-7)?

A criança chora e com o tempo (creia, ele chega!) descobre que a mamãe não está ao alcance de seus gritos, a vitamina não foi modificada em sua estrutura físico-química pelas ondas sonoras agudas, e que o papai não se comoveu durante o “espetáculo”. O problema é chegar na fase adulta sem se dar conta disso.

Mas, calma! Você não precisa estudar sobre as ondas sonoras e os seus efeitos sobre a matéria! Leia os Salmos. Lá descobriremos como chorar feito gente crescida, que sabe o suficiente sobre o refrigério para nossas tristezas, a certeza em meio as dúvidas, o consolo para as lágrimas e a esperança de que Jesus voltará. Paciência, ele chegará!

Bruno Souza

1 Comment

  1. Muito bom!

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