Falta um pedaço de mim

Parece que certos aspectos da nossa relação com Deus no Éden, ainda que tenham sido amputados pela Queda, seguem provocando em nós uma espécie de “fenômeno fantasma”.

Segundo a literatura médica, após uma amputação, o paciente sente a presença do membro ausente, e até seus movimentos, embora isso não seja mais possível. A explicação tem a ver com uma espécie de mapa do corpo presente em nosso cérebro. Desta forma, quando ocorre uma amputação, o mapa cerebral permanece e continua gerando a sensação de presença do membro mesmo na sua ausência. Tal sensação descrita como desagradável, é provavelmente gerada pela manutenção, no esquema cerebral, do membro fisicamente perdido.

Tenho a impressão de que nascemos com saudade de coisas das quais nunca vivemos e, de alguma forma, expressamos a sensação do “membro ausente” em muitas de nossas produções culturais. É intrigante perceber como os poetas conseguem sensivelmente destilar os anseios humanos por realidades nunca antes vividas. Talvez a canção mais popular que exemplifica bem o “fenômeno fantasma”, é a música Índios de Renato Russo. Em uma de suas estrofes lê-se: “E é só você que tem a cura pro meu vício / De insistir nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi”.

Não é de se estranhar que os poetas queiram encontrar aquilo que lhes falta, que desejem experimentar algo cuja raiz parece estar cravada no DNA, pois reconhecem a incapacidade de viver à sombra dessa ausência. Contudo, se esforçam inutilmente buscando em outros braços os abraços que tanto almejam. Os velhos costumes não se apagam facilmente – mesmo aqueles que tenham sido amputados pela traição. Aliás, muitas de nossas canções testemunham que o grande amor perdido não pode ser substituído por “casos” sem compromisso.

A nossa antiga relação com Deus em Adão é como o “fenômeno fantasma”. As próteses não apagam a sensação dessa ausência. Pelo contrário! São testemunhas de que os esforços substitutivos são meramente construções feitas por mãos humanas (Jr 10:3-5). Elas podem dar algum tipo de suporte, mas não passam de uma simulação (Sl 115:5-8). Apenas olhando percebe-se que não fazem parte da composição original e, por isso, sempre será estranha (Is 46:1,7).

A “dor do amputado”, esse fenômeno fisiológico, é tratável com terapia. O que parece persistir no âmago de cada ser humano: este não! Então, ainda que os poetas consigam traduzir em suas canções a sensação de nosso desassossego, somente em Jesus Cristo encontramos o pedaço que nos falta. Agora, a sua religação não se dá no nível dos ossos e medulas, nervos e músculos. Ele fala de uma videira na qual o Pai, o Agricultor (Jo 15:1), enxertará os ramos que foram cortados pela terrível ação do pecado (Rm 11:17-19). Portanto, Nele, e somente Nele, nossa saudade encontra esperança.

Bruno Souza

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