Juntos, porém separados

A Queda deixou marcas profundas por onde passou. Como uma enchente de calamidades, ela mudou a paisagem simétrica dos nossos afetos, subordinou à carne os nossos desejos, modelou com mãos sujas os nossos comportamentos e, por fim, soterrou o coração humano manchando tudo a sua volta com uma poeira pegajosa. Um dos terríveis efeitos da Queda foi a separação do coração entre Adão e Eva gerando individualismo. Quando aceitaram como certa a oferta satânica de que a desobediência produziria benefícios (Gn 3:4-5), uma terrível tensão estabeleceu-se entre homens e mulheres de modo que, a partir deles, todos nós nascemos e naturalmente reproduzimos, em alguma medida, tal separação (Gn 5:3; Rm 3:23).

Homens e mulheres, agora separados entre si, desprezam a verdade de que a vida flui através da comunhão e evitam as palavras do sábio Salomão: “melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro”. Neste mesmo trecho há inclusive uma advertência: “ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante” (Eclesiastes 4:9-11).

Por conta disso, homens e mulheres que vivem juntos vivenciam o seguinte paradoxo existencial: homens exercendo um tipo de liderança tirânica e coercitiva que ignora o verdadeiro sentido do amor sacrificial, bem como da liderança que está a serviço de suas esposas, famílias e Igrejas (Ef 5:25). Há ainda uma ausência de liderança masculina, evidenciando a negligência do seu chamado divino para atuar nos espaços de responsabilidade para manutenção da convivência. As mulheres, por sua feita, tendem a usurpar a liderança masculina naqueles espaços de vocação exclusiva para o homem (Gn 3:16). Por causa do pecado, se tornaram avessas à submissão que espelha o relacionamento da Igreja com Jesus Cristo (Ef 5:22). Por conseguinte, seguem em rebelião contra a própria vocação de “auxiliadora idônea” (Gn 2:18). Em virtude de seus corações estarem separados, muitas mulheres, e até mesmo muitos homens, acham tais ideias ultrapassadas, injustas e preconceituosas.

Conforme bem sinalizou G. K. Chesterton, “o individualismo é uma ilusão de adolescente”. Infelizmente a nossa natureza humana decaída nunca se agrada de renunciar a sua desejada independência. O homem não quer submeter-se a Deus nem a mulher ao homem, ou seja, preferem andar sozinhos. Dessa forma, todo tipo de relacionamento afetado pela “lama” do pecado, soterrado pela “maré” do individualismo e sujo pela “poeira” da morte, se reproduzirá disseminando a “doença” de que somos capazes de viver sozinhos mesmo acompanhados.

Afinal de contas, ao contemplar toda a maravilha da sua criação, foi o nosso Senhor quem errou quando disse: “não é bom que o homem esteja só” (Gn 218)?

Bruno Souza

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