O Rugido do Pequeno Simba

Costumava brincar de ser meu pai. Quando ninguém estava olhando eu calçava seus sapatos, pois amava a ideia de que um dia meus pés seriam daquele tamanho. Vestia alguma de suas camisas, no cinto ajeitava a bainha do facão que ele levava consigo durante nossas idas à roça e entrava na pick-up Willys, Ford F-75, sonhando com o dia em que eu mesmo dirigiria aquele carro trajando as roupas do meu pai.

Uma das coisas mais infantis dessa fase da minha vida foi acreditar que os adultos eram verdadeiramente livres para fazerem o que desejassem. Assim, vestir-me de meu pai proporcionava-me a sensação de que eu poderia antecipar essa vantagem do seu mundo. Não sei se toda criança pensa desta forma, porém, um certo dia, meu pequeno Daniel disse à mesa: Pai, eu quero ser adulto logo! Olhei e perguntei: Mas, porque você quer crescer logo meu filho?Meu pequeno Daniel devolveu o olhar e disse: Quero crescer logo para fazer o que eu quiser!

Se fosse hoje eu diria: Assim falou o pequeno Simba! Estou falando daquele leãozinho do filme O Rei Leão, o filho do grande Mufasa. O Simba que, desejando ser igual ao seu pai, desobedece as suas ordens e coloca-se em perigo para provar que não é mais um filhote. Ele é o filho do rei e, por isso, o sucessor legítimo do seu trono.

Na cabeça do pequeno Simba, ser rei significava poder fazer qualquer coisa – inclusive mandar em todos. Uma espécie de passaporte para não seguir ordens de ninguém, tradições e nem tão pouco dar satisfação de suas ações. Ele segue cantando uma canção enquanto quer despistar o pássaro Zazu, o encarregado de sua proteção. Uma canção que evidencia o seu desejo de reinar por um propósito: ser livre para viver conforme pensa que a vida deveria ser.

Essa história não é original! Conhecemos outra – e ela não é obra de ficção! Quando tentados pela serpente, Adão e Eva se deixaram levar pela mentira diabólica de que a desobediência promove benefícios. Eles cobiçaram ser “como Deus” (Gn 3:5) e o resultado foi devastador para toda a humanidade. No lugar de seguirem nus (Gn 2:25), fizeram para si roupas para cobrir suas vergonhas (Gn 3:7). Se não fosse pela iniciativa Dele colocar outra roupa mais aceitável neles, ambos jamais poderiam desfrutar de sua companhia novamente (Gn 3:21).

Pensei na simplificação infantil pela qual uma criança percebe o mundo e lembrei que, mesmo sendo adulto, ainda me comporto assim. Por isso, ainda ouço aqui e acolá os rugidos agudos do pequeno Simba. Contudo, há um rugido mais grave, potente e com amplitude superior…um rugido de um Leão que enfrentou as hienas oferecendo-se a si mesmo em nosso lugar. Um Leão, este sim, o verdadeiro Rei, cujas roupas nos foram dadas para que pudéssemos ser aceitos em sua presença. A qual dos “rugidos” você tem dado mais ouvido ultimamente?

Bruno Souza

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