O sotaque do Reino de Deus

Um rapaz entra em uma agência dos Correios e espera a sua vez. No guichê, disse: “Quero enviar esta carta”. Do outro lado do balcão uma mulher de cabelo amarelo sorri e dispara: “Boa tarde, baiano! Ôcê é baiano, né mesmo?” Enquanto tentava desvendar o mistério da adivinhação, ouviu: “Seu sotaque não nega. Ôces falam cantando”.

Anos depois o rapaz volta para a Bahia, para o lugar onde seu sotaque seria comum. Contudo, seus amigos passaram a estranhar certas diferenças na sua conduta. Agora ele lia a Bíblia diariamente e também orava. Aos poucos foi deixando de compartilhar palavrões, e a pornografia não o tinha na coleira como um cão. Isso assustou os amigos. Logo ganhou o apelido de “crente” – em parte porque seu sotaque diferenciado o fez perceber o que é estar inserido numa cultura permissiva, opressora, sedutora, egoísta e que banalizava a fé em Deus.

O sotaque em um país como o Brasil é piada pronta para muitos. Junte-se a isso alguma característica destacada – algum defeito na aparência ou um comportamento diferente do padrão socialmente aceito. Foi assim que em Antioquia os discípulos de Jesus foram chamados pela primeira vez de “cristãos” (At 11:26). O populacho da cidade viu a oportunidade para apelidar um novo tipo de gente que surgiu e que eles não conseguiam entender. Essa gente não se encaixava em nenhuma das categorias e, assim, foi necessário inventar um novo nome. Sem saber, esse apelido foi transformado na designação pela qual, em todo o mundo, os seguidores de Jesus Cristo são identificados – cristãos.

O povo de Antioquia viu algo estranho naquela gente. Uma mudança expressiva e perceptível. Não eram mais judeus nazarenos, galileus ou gentios convertidos ao judaísmo, havia algo surpreendentemente diferente e incomum nesse grupo. O apelido reconhecia e declarava a devoção dos discípulos a Cristo, seu líder, como marca de uma autêntica identidade. O evangelho proporcionou a verdade transformadora e deu a eles um novo sotaque que não se refletia mais na linguagem. Os convertidos formavam uma família da fé que espelhava, pela conduta, a proximidade com seu Mestre Jesus, o Cristo.

No evangelho de Mateus (26.73) algumas pessoas “disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia”. Pedro era gente da terra, judeu como eles. O problema não era o sotaque percebido pela linguagem. O modo de falar que denuncia inclui saber do que se abster, a quem louvar e agradecer e como suportar a opressão.

Não é fácil ser cristão. Você se acha tímido e fraco para viver nesse mundo hostil ao cristianismo? Acha que ninguém entende seu sotaque? Se a sua fé for pública e comprometida, certamente o seu comportamento revelará o sotaque da cidade celestial. O mundo estranhará quem reflete esse andar com Deus nos seus relacionamentos e atitudes. Permaneça firme e “fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus” (2 Tm 2.1).

Bruno Souza

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