Os Solteiros são Seres Incompletos?

Em nossas Igrejas, normalmente, os solteiros são vistos como pessoas incompletas que somente estarão realizadas quando encontrarem sua “alma gêmea”. Ainda que você não tenha lido “O Banquete”, a ideia da “alma gêmea” está presente no modo como eventualmente lidamos com a solteirice.

Platão, em “O Banquete”, antes de definir o amor, precisa dizer o que é a natureza humana. Segundo crê, os seres humanos eram inicialmente um só gênero em um único ser que possuía dois pares de cada membro. Neste conto, tais seres eram “de uma força e de um vigor terríveis”, e porque tinham “uma grande presunção”, rebelaram-se contra os deuses e tentaram subir até o céu. Zeus precisava enfraquecê-los e acabou cortando-os em dois, separando-os pelo meio. Assim, passaram a andar eretos sobre duas pernas como seres incompletos.

Explica Platão: “[…] desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro”. Então, segundo este conceito, a natureza humana se define pelo anseio de encontrar a própria metade.

Lembrei-me de uma música: “Carne e unha, alma gêmea, bate coração. As metades da laranja, dois amantes dois irmãos. Duas forças que se atraem […]”. O compositor está simplesmente refletindo uma percepção popularmente platônica de que seres humanos seguirão incompletos até que encontrem sua “cara metade”. Assim, ardendo de paixão romântica, não desejam fazer outra coisa, senão, alimentarem-se de seus afetos para viver daquilo que chamam de “amor”.

Parece que, neste caso, temos sido pautados mais pela visão de mundo platônica do que propriamente bíblica. É possível que estejamos mais do que apenas refletindo um anseio por relacionamentos, porque “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18). Abaixo disto, creio eu, encontra-se uma tentativa humana que recusa estar completo simplesmente em Deus (Ct 6:3; Hb 8:10). Então, apesar de não estarmos pecando quando ansiamos pelo casamento, podemos ser culpados de mau uso do privilégio de sermos solteiros esquecendo-nos de que já temos companhia (Is 54:5; Ez 16:8).

Quem é solteiro dê graças a Deus por isso, embora siga desejando casar-se. Contudo, não permita que a insatisfação o encoraje ao uso indevido desta liberdade, pois, quando permitimos que um desejo por algo que Deus obviamente ainda não nos deu (casamento), roube a nossa habilidade de aproveitar e apreciar o que ele já nos deu (ser solteiro), facilmente somos derrotados pelas tentações.
Deus quer que estejamos contentes, mesmo que tenhamos desejos não satisfeitos. Nisto aprendemos que a vida não consiste apenas na realização amorosa. Assim, ao invés de aproveitarmos as qualidades únicas de estar solteiro, perdemos o foco concentrando-se naquilo que ainda não possuímos.

Bruno Souza

Submit a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *