Quem não tem visão…

Lembro-me de quando a minha irmã ganhou um par de patins, cada qual com quatro rodas vermelhas presas numa bota branca de cano alto. Imagine a minha inveja! Imediatamente desejei aquilo que parecia ser tão fácil para ela: simplesmente patinar. Não demorou muito e ela então me proibiu: “nem pense em pegar os meus patins!”. Claro que desobedeci, pois considerei injusta tal determinação. E assim, sem querer olhar para os limites determinados, calcei os patins. O resultado foi dar de cara no muro da garagem.

Poderia não ter acontecido nada. Aliás, na maioria das vezes temos a sensação de que a impunidade é uma regra e, diga-se de passagem, muita gente se aproveita disso como pretexto para avançar sobre os limites e “se dar bem”. Daí uma queixa comum é dizer que a lei pune apenas pessoas de bem enquanto os maus seguem arrogantemente prosperando em tudo e sem nenhuma preocupação. Não obstante, a teimosia obscurece a compreensão de que existem limites impostos para nossa preservação e que ultrapassá-los compromete a segurança e traz prejuízos.

É interessante como o salmista Asafe no Salmo 73 descreve tal postura definindo-a como ignorância (v.22). Sua falta de visão aparece quando ele observa a vida de popularidade dos arrogantes (v.10) em seu aparente estado de saúde e prosperidade (v.4-5) e julga ser inútil conservar-se puro. Dessa forma, Asafe representa a ignorância como um caminho escorregadio e resvaladiço que sempre submete à queda quem por ele aventura-se a andar (v.18). O salmista afirma que a queda ocorre no momento em que a pessoa negligencia os limites propostos por Deus e coloca “os pés para fora” (v.2) do eixo normal de equilíbrio na ilusão de que poderá sustentar-se sobre este substrato movediço.

Os pés do salmista “quase” resvalaram (v.2). Saiba que o coração está inclinado para o pecado. Por isso, questionaremos perigosamente a bondade e o poder soberano de Deus assim como Asafe fez. Sempre que olharmos para a vida e acharmos que Deus é injusto, chegaremos a conclusões temerárias como esta: é inútil manter-se puro e fiel a Deus (v.13-14).

Todavia Asafe percebeu algo fundamental: o Bem Divino não é a prosperidade. Os ímpios podem de fato ser bem-sucedidos mesmo vivendo na impiedade, mas estão cegos para ver o Bem Divino: a Presença de Deus e estar junto dele (v.23-28). Algumas pessoas continuarão andando de patins. Seguirão sorrindo no caminho escorregadio, tentando equilibra-se de alguma forma, mas sem se dar conta de que existe um muro de concreto logo à frente. Que este não seja você, pois quem não aceita orientações, quem não gosta de ouvir, quem rejeita a instrução, não pode aprender nem ser corrigido, será como nas palavras do poeta: “quem não tem visão bate a cara contra o muro!”.

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