Realidade (Des)Agradável

Queridos pais! Não pensem que fará um grande bem a seus filhos esconder-lhes as tristezas existentes na vida. Quando estiverem com eles, recordem-se disso: o mundo tende a dissimular com a sua lógica perversa as razões pelas quais as coisas desagradáveis existem.
Não é estranho que acreditemos que bem-aventurança é apenas sinônimo de alegrias, bem-estar, “vento em popa”, “vida no oásis”, saúde intocável, dinheiro, fama, prestígio, mesa farta, e tudo o mais de bom. “E que Deus não venha nos atrapalhar nisso!” – é o que chegamos a dizer. Contudo, essa teologia defeituosa nos ensina a medir o amor de Deus a partir da presença dessas bênçãos. De sorte que, vindo a faltar-nos, pensamos que cometemos algum pecado, ou, mais corriqueiro, afirmamos que Deus não é tão bom assim.

Dificilmente treinamos as nossas crianças a considerarem que das mãos de Deus tanto recebemos prosperidade, quanto adversidade (Ec 7:14; Jó 2:10). Assim, ao seguirmos desconsiderando que o Tapeceiro constrói sua obra usando sofrimentos como moldura, confundiremos as nossas crianças se escondermos delas que “bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós (Mt 5:11). Promoveremos o engano enquanto não as ensinarmos que “o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1:21). Tenha por certo que negaremos o verdadeiro ensino a nossos filhos se não ousarmos dizer que coisas desagradáveis fazem parte desta vida.

Deus nos conduz por meio de coisas desagradáveis: ensine isso à criança! Davi declarou com confiança: ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam (Sl 23:4). É verdade que coisas fofas existem, mas, de igual modo, existem bruxas, maçãs envenenadas, dragões que cospem fogo, zumbis devoradores de cérebros e vampiros ávidos por sangue. Mostre para as crianças um mundo repleto de coisas maravilhosas, mas, também, mostre que nem sempre o que é melhor para nós é igualmente agradável. O grande Tapeceiro usa fios de tristeza, dias complicados, noites de insônia, a morte de bichinhos de estimação, doenças, aflição, e a nossa própria morte, tudo para que vejamos, em sua maravilhosa obra, que este mundo não é exatamente igual ao que haverá de ser um dia. As crianças, de fato, necessitam praticar o que elas têm cantado em nossos cultos; e vendo a mudança, tenham a confiança que um dia perfeitas elas serão!

Falar das coisas pesadas não significa excluir o excelente lugar da alegria, da festa, do brigadeiro, dos super-heróis, do Lego Batman, ou do “Bita e os Animais”. O que estou dizendo é que não podemos excluir da vida de nossos pequenos o ensino formador dos seus corações. O ensino de que é importante celebrar a vida, mas que é igualmente necessário encarar a morte. Afinal de contas, contemplar o final da vida é uma maneira usada por Deus para nos fazer crescer.

Bruno Souza

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