Tal Pai, tal Filho

A criança nasce com aquela carinha de “joelho” e, após um primeiro olhar, os comentários fatalmente desembocam no assunto da vez: “se parece com quem?” A depender do contexto, os pais sentem um tremendo orgulho quando ouvem que seu filho se parece com eles. Buscam na aparência do bebê alguma marca familiar, algum sinal de que conseguiu imprimir na sua prole algo visível que o identifique como sendo, de fato, seu.

Ainda no hospital, parentes trazem consigo alguma foto de quando éramos criança no afã de provar a verossimilhança entre pai e filho. A apoteose consuma-se no exato momento em que, colocada a foto ao lado do bebê, os olhares se desviam para o pai e o suspense é quebrado quando ouve-se triunfante a seguinte frase: “Tal pai, tal filho!”

Com a chegada dos filhos ocorre uma mudança sutil em nós que se mostrará a partir de um comportamento quase imperceptível durante o exercício da paternidade. Falo do equívoco de pensarmos que nossos filhos devem se parecer exclusivamente conosco, isso porque achamos que eles nos pertencem. Ou seja, sendo a cara do pai, ou não, muitas são as formas utilizadas para imprimir nossas “marcas” nos filhos. Então, o sucesso deste empreendimento confirma-se quando a frase aguardada é, finalmente, pronunciada: “Ele é a sua cara!”

A paternidade motivada pela ideia de que os filhos são posses, incorre no erro de empregar-se esforços, tempo e recursos para conduzi-los em uma trajetória de vida moldada pelos desejos pessoais dos pais e não de Deus. Consequentemente, agindo dessa forma, deixamos de lado o fato de que ser pai é uma missão dada pelo Senhor (Gn 1:28; 3:16).

Se nos orgulhamos em ter filhos semelhantes a nós, fracassamos na missão de embaixador, já que, “o plano de Deus para os pais é que sejam agentes divinos na vida daqueles que foram criados segundo à sua imagem e confiados ao nosso cuidado” (Paul Tripp. Desafio aos pais: 2018, p.11).

Ora! Não precisamos fazer esforço para que as crianças se pareçam conosco, pois, conforme lemos em Gênesis, os filhos de Adão nascem “à sua semelhança, conforme a sua imagem” (5:3). O nosso esforço é contra o pecado de considerarmos os filhos como propriedades e criá-los para nós, conforme o caminho que nos parece ser o melhor à parte de Deus.

Esteja ciente: Os filhos são herança do Senhor (Sl 127:3) para o propósito dele. A nossa tarefa, portanto, é desejar aquilo que a vontade revelada de Deus nos dirige a ser e fazer, isto é, sermos embaixadores a serviço do Rei.

O sucesso da paternidade é servir a Cristo como uma ferramenta em suas boas mãos – ferramenta usada por Jesus para esculpir filhos à semelhança dele e não da nossa própria. Assim, que a alegria surja ao vermos as crianças imitando-nos naquilo que somos parecidos com Jesus Cristo (1 Co 11:1): Ele sim, tal qual o Pai! (Jo 10:30).

Bruno Souza

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